Nelson Rodrigues e sua crítica ao jornalismo “objetivo”

Nesta sexta-feira, 23 de agosto, completamos 101 anos de nascimento do jornalista, escritor e dramaturgo, Nelson Rodrigues (1912-1980). Embora não fosse reconhecido como um jornalista literário, no completo sentido estilístico da narrativa, o “anjo pornográfico” era um crítico ao jornalismo “objetivo” que surgia no Brasil no início dos anos 50 e se consolidava em 60. O jornalista e escritor Lago Burnett (1929-1995) completa o raciocínio em seu livro, “A língua envergonhada” (1976)¹:

“Nelson Rodrigues tem razão quando se insurge contra os que chama de idiotas da objetividade, ironizando o mecanismo e a frieza completa da imprensa de hoje, que repele o ponto de exclamação até mesmo quando se trata de exclamação feita pelo entrevistado. (…) Sempre sonhei com um jornalismo claro, em que se conciliassem a objetividade e o humanismo (…) é impossível exigir que todos sejam brilhantes. Mas é imprescindível que sejam corretos”.

O jornalista Nelson Rodrigues trabalhou nos jornais “A Manhã”, “A Crítica”, “O Globo”, “O Jornal”, “Última Hora” e “Correio da Manhã” fugindo da demagogia da objetividade, em um tempo no qual fugir das amarras do texto seco, direto e sem aprofundamentos e estilo era possível. Entre 1925 e 1936, no período inicial de sua carreira, Nelson publicou 640 textos. A maioria com foco em reportagens policiais, críticas culturais, crônicas esportivas e artigos de opinião. Abaixo um trecho da reportagem “Um açougueiro sentimental – agredido a faca quando recitava Baudelaire”, de 1º de maio de 1928, na página 7 do jornal “A Manh㔲:

“O Manoel estava, ontem, sacudido de exaltações frenéticas (…). Embora fosse açougueiro, isso não o impedia de ser um sentimental, um romântico, um artista (…).O homem foi para o Mangue. Ali chegando, começou a enviar a toda figura feminina que lhe passava ao lado ou à frente um exame meticuloso e penetrante. Chegava ao mais aceso da pesquisa, quando apareceu a figura adequada. Então, Manoel, garboso, elegante, ativo, mostrando a alvura cintilante dos dentes, recitou ao anjo de ternura uma multidão de versos “Fleur du Mal” de Baudelaire.A doce figurinha, que era uma mulata reforçada, dispôs-se a ficar melancólica. Quando, porém, já ia suspirar e fitar o ocaso, apareceu-lhe o “coronel”, temível capoeira. O homenzinho apareceu no momento em que Manoel gemia Baudelaire. Vendo o sedutor da pequena, ele se encheu de ira. Ficou terrível. E não conversou… Puxou de uma faca e feriu, no peito, o sentimental açougueiro. Ato contínuo evadiu-se.Reclamada a assistência, esta socorreu a vítima que é Manoel Ferreira da Silva, português, residente na praça da Igrejinha. O palco do drama foi a rua General Pedra, esquina do Carmo Netto. (A Manhã, 1928, apud Coelho, 2000).

A subjetividade assumida sem freios por Nelson Rodrigues na reportagem acima, revela um repórter que levou em conta elementos que transcenderam o fato e rechearam um assassinato de significado, cômico, trágico e poético. O sensacionalismo rebuscado de um assassinato refletia as particularidades da sociedade carioca no período. Gírias, descrição “popular” dos locais e das fontes (quase personagens), dimensionava o acontecimento com elementos quase que sensoriais. Vivia-se a história e entendia-se a profundidade de um crime.

A reportagem, datada do ano de 1928, reflete, claro, a liberdade editorial do período. Liberdade limitada na década de 50, por meio da implantação, por parte de Danton Jobim, Pompeu de Souza e Luís Paulistano, no Diário Carioca, de técnicas de objetividade como o lide (Lead) e copidesque (copydesk) nas redações. Nelson Rodrigues, detentor de talento singular, texto vivo, particularizado e subjetivo, criticou as mudanças, que começaram a serem adotadas na maioria da imprensa nacional, em uma crítica memorável intitulada, “Os idiotas da objetividade”:

“Sou da imprensa anterior ao copydesk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou, simplesmente, não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.

Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copydesk . Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copydesk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copydesk instalou-se como a figura demoníaca da redação.

Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copydesk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca ,do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.

Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saía más coisas, porém incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um mato qualquer ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei, talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copydesk.

Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca ; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam.

Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiotada objetividade”.

Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copydesk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.

E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta w exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.

Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o reitinha o olho perdidamente azul). Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.

O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura.

Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.

Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copydesk , sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil . A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.

O Jornal do Brasil, sob o reinado do copydesk , lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.

E o pior é que, pouco a pouco, o copydesk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copydesks ? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copydesk, talvez.

Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem”.

Salve Nelson Rodrigues, um escritor brilhante, um dramaturgo além de seu tempo e um jornalista que narrou a “história em movimento de sua época”, de forma apaixonada, profunda e singular.

23 de agosto de 2013, 101 anos de Nelson Rodrigues

23 de agosto de 2013, 101 anos de Nelson Rodrigues

Fontes pesquisas:

¹RUSSO, Antônio Ricardo Rosa. A canção jornalística: concerto de vozes no texto jornalístico. 2009. 106 f. (Mestrado em Ciências da Linguagem). Universidade do Sul de Santa Catarina. Palhoça, 2009.

²SOUZA, Marcos Francisco Pedrosa Sá Freire de. O jornalista e cronista Nelson Rodrigues. Disponível em <https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=9&cad=rja&ved=0CFwQFjAI&url=http%3A%2F%2Fwww.fca.pucminas.br%2Fcoreu%2Fproducao%2Fjn-cultural%2FNELSONRODRIGUES.doc&ei=sZsXUtShCtKy4AO9gIFQ&usg=AFQjCNFVYmhc1F_3EWuhHqq2sDuJXlI4FQ&bvm=bv.51156542,d.dmg&gt;. Acesso em 23 ago. 2013.

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