Médicos cubanos: um outro olhar *por Yan Boechat

A matéria abaixo, um exemplo de como se faz um bom jornalismo literário, mostra uma abordagem diferente das manifestações ocorridas em meados deste ano. O tema mostra uma manifestação, realizada por médicos brasileiros, em são Paulo, que questionavam a vinda de médicos cubanos para o País (tema em alta na mídia nacional nos últimos dias). Yan Boechat contou o fato sob o olhar de dois personagens do acontecimento: Wesley e Edenilson. 

Wesley Rodrigues e Edenilson Rocha não se conhecem. Salvo alguma dessas incríveis coincidências, provavelmente jamais vão trocar uma palavra entre si. Wesley é filho de um bem sucedido empresário do setor de auto-peças do Piauí, estuda medicina em São Paulo e aos 30 anos de idade ainda não sabe o que é trabalhar. Edenilson nunca foi a um médico particular em seus 39 anos de vida, nem quando morava na Bahia, o estado natal que abandonou há quase 20 anos para tentar a sorte em São Paulo. A sorte, diz, veio na forma de 4 filhos, que dividem com ele e a mulher uma barraca de lona preta no Pinheirinho de Santo André, uma ocupação irregular que abriga 1,2 mil famílias na cidade do ABC paulista.

As histórias de Wesley e Edenilson se cruzaram ontem, 3 de julho, às 18:30 minutos, na Avenida Paulista, em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Os dois estiveram a pouco menos de 5 metros um do outro, mas nem se entreolharam. Wesley seguia na direção do Paraíso carregando um cartaz feito de cartolina amarela em que estava escrito: “O Piauí não quer médico cubano”. Edenilson seguia em direção à Consolação. Não carregava nada. Apenas ornavava a testa com uma larga faixa branca, onde estava escrito: MSTS, a sigla do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

Os dois foram à principal avenida de São Paulo ontem para protestar. Wesley fazia parte do numeroso protesto de médicos paulistas que são contra a proposta do governo de importar profissionais de outros países para regiões onde os doutores daqui não querem ir. Apesar de ainda estar fazendo residência em geriatria na Santa Casa, Wesley se sente agredido pela proposta do governo. “Isso é um absurdo, nós exigimos a revalidação dos diplomas. Não sou contra estrangeiro, inclusive na Santa Casa tem um chileno que é ótimo e conseguiu revalidar o diploma dele”, conta, ainda com o forte sotaque nordestino.

Edenilson. Foto de Yan Boechat.

Edenilson. Foto de Yan Boechat

Wesley diz já ter gasto quase meio milhão de reais em sua formação e considera injusto que um médico de outro país simplesmente seja contratado sem ter sua capacidade técnica avalizada pelo Conselho Regional de Medicina. “Só minha mensalidade era de R$ 5 mil. Fiquei seis anos na PUC pagando isso, faça as contas ai”, diz. Apesar de bradar por meio de uma cartolina que o Piauí não quer médico cubano, Wesley não tem ideia de quantos médicos por mil habitantes existem em seu estado natal. “Disso estou por fora”. O Piauí tem uma das menores taxas de médico por mil habitantes do país: 1,05.

Edenilson foi pra rua pra lutar por uma casa para ele e sua família. Estava no protesto organizado pelos movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda, que, como os médicos, também cruzou a paulista no fim da tarde de ontem. Em meio a velha cantinela de sindicalistas profissionais defendendo propostas como o não pagamento da dívida pública, Edenilson, já cansado da caminhada, parou para observar os médicos. Caminhavam vestindo os jalecos das universidades ou dos hospitais que trabalham.

Muitos enrolaram-se às bandeiras brasileiras de 1,5 metro por 1 metro que estavam sendo vendidas por ambulantes a R$ 10,00 na paulista. Fabricadas na China, nem o vendedor acreditava que elas chegavam a esse preço na avenida sem alguma irregularidade no caminho. “É chinesa, mas vem pelo Paraguai”, contava. Ao seu lado, uma médica jovem que carregava um cartaz pedindo o “Fim da corrupção” e “Fora Dilma e o PT”, barganhava. “Faz duas por R$ 15, moço, tá muito cara essa bandeira”.

Wesley. Foto de Yan Boechat

Do lado de Edenilson, alguns manifestantes gritavam, sem muito entusiasmo: “Na quebrada não tem doutor”. Do outro lado do canteiro da Paulista, ouviam-se uns gritos ainda mais tímidos de rapazes e moças bem apessoados: “É sem partido” ou “PSTU, vai tomar no cu”. Suado, Edenilson dizia entender os médicos. Mas achava que deviam unir as forças. “O desemprego ta grande e querem trazer gente de fora, eles tem razão em protestar. Só acho que a gente devia tudo se unir”, conta ele, que espera há dois anos para conseguir fazer uma cirurgia de hérnia.

Não houve união. Os médicos seguiram seu caminho. Os sem teto e os sindicalistas também. As duas manifestações ficaram divididas, ao final, pelo protesto de um grupo de surdos. Com cartazes e faixas pediam mais escolas bilingues, em libras. Mesmo com a maioria deles sem conseguir falar, tentaram fazer barulho. Mas os gritos coordenados de “uhhh, uhhh” acabaram abafados pelos carros de som.

 

Yan Boechat é carioca, fez faculdade na Universidade Federal de Santa Catarina e vive em São Paulo, entre algumas idas e vindas, há quase 15 anos. Na capital paulista trabalhou em publicações como Gazeta Mercantil, Valor Econômico, Istoé, iG e, desde o início do ano, atua de forma independente. Contribuiu com matérias para O Estado de S. Paulo, Exame, Época, GQ, Marie Claire e outras. Mesmo vivendo há tanto tempo fora do Rio, permanece um flamenguista ortodoxo. Seu principal projeto no momento é ganhar na Megasena, esteja ela acumulada ou não. Boechat ainda tem tempo para manter um site de fotografia no endereço www.yanboechat.com.

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