Sob as ruínas do jornalismo

*Por Raquel Wandelli

A um repórter cada vez mais distante da cena do cotidiano, que nem acumula a experiência do viajante nem a arte de ouvir histórias do narrador sedentário, está vedada a captura do acontecimento ou o movimento da serendipitia.

Deambular, navegar, andar ao acaso, avançar para novos territórios, fugir para a rua são movimentos atávicos de migração de povos que inspiraram a escrita-viagem. A sanha de caminhar pelo planeta, que faz bichos e homens varrerem mundos, não é mais o que move a narrativa jornalística.

Nos tempos de hoje, o jornalista não pode mais andar ao acaso nem sujar os sapatos. Repórteres saem às ruas com pauta, fontes e imagens programadas. Saem para chegar a um fim predefinido, da mesma forma que os habitantes percorrem avenidas como não-lugares apenas para chegar a um destino, não para aproveitar a viagem.

Ruas se tornaram vias de passagem e não mais locais de convívio e memória afetiva ou olfativa. Com as transformações aceleradas na paisagem urbana, ao ritmo das destruições e construções, as ruas não são mais observadas, não são mais sequer vistas. Não têm mais nome, cheiro, jeito e identidade como as ruas de João do Rio. Tornaram-se vias de acesso veloz, estações rodoviárias, aeroportos, viadutos que não constituem mais lugares significativos em si.

Passa-se pela cidade para se chegar a algum lugar, não para amá-la, como fazia o flâneur. Aos poucos os flutuantes habitantes de Flores do mal, de Baudelaire, deixam a cena urbana para dar lugar aos internautas, habitantes das galerias virtuais, que vão compor outro tipo de flanêrie onde o inumano se apresenta mais na relação do homem com a máquina do que com os outros seres.

Foto de Cristina Souza

Foto de Cristina Souza

Entre os que se dizem repórteres, só quem sai de casa sem destino é o flâneur, essa ruína arqueológica e jornalística do nomadismo humano e animal. Narrador condenado pela claridade do progresso, ele morre a cada morte do desejo de ver o invisível, condenado pela pressa das mídias, pela descaracterização da vida em comunidades. Só ele experimenta a potência de se dissolver na multidão e só ele ama os cadáveres de habitantes que ainda flutuam pelas esquinas.

A um repórter cada vez mais distante da cena do cotidiano, que nem acumula a experiência do viajante nem a arte de ouvir histórias do narrador sedentário, está vedada a captura do acontecimento ou o movimento da serendipitia. Serendipismo: condição de flâneur que Gay Talese chamou para si em referência às descobertas afortunadas, feitas aparentemente por acaso, que favorecem a mente preparada e produzem grandes descobertas científicas melhor conhecidas como “eurecas”.

Modo especial de criatividade, faro animal para o rastro do acontecimento, o serendipismo alia qualidades adultas e infantis: de um lado perseverança, perplexidade e senso de observação; de outro, o estranhamento primeiro, a curiosidade e a fome de achados da infância. Embora a tentativa de capturar o instante do cotidiano seja teoricamente a tarefa por excelência da reportagem, o jornalismo sem flânerie passa ao largo do movimento da história e da noção de acontecimento como um processo irrepetível e inenarrável.

Sobretudo a economia da organização empresarial do jornalismo baniu a flânerie e o repórter serendipitoso. Aboliu a possibilidade de revelação das ruas ou da reportagem in progress, que se desdobra feito as narrativas das Mil e uma noites, como em Les nuits de Paris, de Restif de la Bretonne. Intercalando aparições cíclicas e fantasmagóricas com longos períodos de desaparecimento, o narrador-coruja tem uma vida efêmera, como a dos vaga-lumes de Pasolini, mas também como todos os animais boêmios e notívagos que não fazem estoque para o inverno. Como uma corrente de ar do passado, o narrador-coruja desaparece e retorna de tempos em tempos, na sua potência humana e animal, percorrendo os devires da literatura.

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