JL Entrevista: “Existe um interesse social por narrativas reais de qualidade”

Abaixo uma entrevista exclusiva concedida por Edvaldo Pereira Lima para os leitores do blog. Na entrevista – o co-fundador da ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), doutor em Ciências da Comunicação, pós-doutor em Educação pela Universidade de Toronto e criador do método Escrita Total – comenta sobre o atual momento do Jornalismo Literário no Brasil, o futuro da ABJL, dá dicas para quem deseja ser um jornalista literário e analisa o jornalismo convencional, apontando seus desafios e falhas.

Edvaldo Pereira Lima - Jornalismo Literário

Edvaldo Pereira Lima é um dos principais responsáveis pela difusão do Jornalismo Literário no Brasil. Lima é autor de livros como o “Páginas Ampliadas” e “Jornalismo Literário para Iniciantes”, duas importantes publicações sobre escrita criativa e profunda

JL – Como está o cenário do Jornalismo Literário brasileiro atualmente?

Lima – Como sempre, ao longo da história, neste país e em outros, o Jornalismo Literário ocupa um segmento marginal, mas importante, no cenário da produção convencional de jornalismo. A modalidade nunca foi a favorita das instituições jornalísticas, no Brasil, preferindo essas o modelo clássico noticioso e de reportagens estruturadas de uma maneira conservadora, do ponto de vista de estilo narrativo. Ao contrário de um país como os Estados Unidos, onde sempre houve publicações preferencialmente voltadas ao estilo do Jornalismo Literário – como The New Yorker, Atlantic, Esquire, Texas Monthly e outras menos badaladas – , entre nós só houve um breve – e riquíssimo – momento cultural em que isso se deu, o período histórico da revista Realidade e do Jornal da Tarde paulista, nos anos 1960 e 1970. Hoje, a modalidade encontra-se pulverizada aqui e ali, sem encontrarmos uma publicação periódica onde se possa dizer com consistência que a linha editorial privilegia solida e regularmente o Jornalismo Literário. Na chamada grande imprensa, surge mais como iniciativa de autores isolados ou de editores e autores que cultivam a boa tradição narrativa do jornalismo. Assim, você encontra de vez em quando boas e ótimas matérias em estilo Jornalismo Literário na Brasileiros, na piauí , no Estado de S. Paulo – especialmente no caderno “Aliás” e particularmente matérias assinadas por Christian Carvalho Cruz e Ivan Marsiglia -, e com menos frequência na Zero Hora, na Gazeta do Povo, no Correio Braziliense. Encontra muito Jornalismo Literário em livros-reportagem – terreno em que se destacam Eliane Brum, Caco Barcellos, José Hamilton Ribeiro, Klester Cavalcanti –, além de obras traduzidas de autores internacionais. Nas biografias, pode-se identificar alguns ou muitos elementos da modalidade, como é o caso da ótima abertura de O Mago, a biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais. E encontra também em blogs, sites e iniciativas eletrônicas inovadoras, além de exemplos estimulantes, às vezes, em veículos de imprensa localizados fora das grandes metrópoles brasileiras. É o caso da ótima série de Leila Gapy sobre uma sobrevivente da bomba atômica residente no Brasil, publicada pelo jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, São Paulo.

JL –  Qual área do jornalismo (jornal impresso, livro-reportagem, web, tv, rádio etc.) o estilo jornalístico-literário tem mais potencial de desenvolvimento no País?

Lima – Tradicionalmente, o veículo com maior “vocação”, digamos assim, para o Jornalismo Literário, é o livro-reportagem, pela liberdade de ação editorial e de produção que oferece aos autores e editores. O Brasil já é um país que publica um número respeitável de livros-reportagem anualmente, alguns dos quais absorvem alguns ou vários dos princípios, dos procedimentos e das técnicas que caracterizam o Jornalismo Literário. O terreno continua aberto, oferecendo um amplo campo de ação para escritores da vida real que tenham sensibilidade, domínio técnico da modalidade e visão de mercado para conquistar o espaço disponível. Fico contente em ver que editoras como a Arquipélago, de Porto Alegre, abrem espaço, em sua linha editorial, para livros produzidos nesse estilo. Também existe a opção da produção independente, sem custo para o autor, do Clube de Autores – http://www.clubedeautores.com.br -, sistema editorial inovador onde já existe uma seção de Jornalismo Literário. E claro, grandes editoras, como a Companhia das Letras, a Globo, a Planeta e tantas outras publicam títulos de não ficção produzidos sob esse estilo. Fora os livros, a web é sem dúvida um campo totalmente aberto a aproveitamento editorial por autores e editores de visão, espírito empreendedor e criatividade. Precisamos aqui, porém, evitarmos o dogma falacioso de que na internet o leitor só lê textos curtos. Ao contrário, desde que você ofereça matérias de qualidade e saiba usar os recursos específicos da mídia – dividir um texto longo em capítulos, por exemplo, acrescentar infográficos, recursos audiovisuais, remeter a hipertextos interessantes etc – , o leitor curte. Existe vida para o Jornalismo Literário fora também do “esquemão” tradicional dos grandes veículos. Fico contente de ver que algumas iniciativas na web nasceram – e continuam nascendo – de profissionais que fizeram a nossa pós-graduação em Jornalismo Literário, como, por exemplo, o blog Jornalismo Literário de Amanda Costa – jornalistaamandacosta.blogspot.com.br -, em Goiânia. E há outras iniciativas bastante criativas, fora dessa perspectiva estreita dos canais de comunicação, como a do pessoal do Profecias & Biografias -www.biografiaseprofecias.com.br – em São Paulo.

JL – A ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário) é, atualmente, a principal organização fomentadora do estilo no País. Que objetivo a ABJL tinha na sua fundação e quais objetivos têm hoje?

Lima – A ABJL nasceu como um desdobramento natural e indireto do trabalho que eu desenvolvia na pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A ABJL não foi iniciativa minha, mas a ela me agreguei, em resposta a convite. Fomos quatro os co-fundadores. Também participaram Celso Falaschi, Rodrigo Stucchi e Sergio Vilas-Boas. Nosso propósito-guia era difundir e disseminar a cultura e o conhecimento do Jornalismo Literário para além dos muros universitários tradicionais. Queríamos que o vasto conhecimento reunido – especialmente através do trabalho em torno da nossa iniciativa orientando Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado sobre o tema, produzindo experimentos modernizadores, criando disciplinas de pós-graduação especializadas, reciclando o Jornalismo Literário e experiências frutíferas na área de graduação de universidades , como a que conduzia Celso Falaschi na PUC de Campinas, São Paulo, e o experimento que dirigi na Universidade de Uberaba em Minas Gerais, por um tempo liderando o Curso de Comunicação Social tendo como parte do corpo docente vários profissionais jovens desse núcleo que girava em torno da USP – em mais de uma década de desenvolvimento chegasse a toda a comunidade educacional do jornalismo. Assim, primeiro criamos o site TextoVivo – http://www.textovivo.com.br – e depois a ABJL –www.abjl.org.br -, reunindo e publicando ali muitos textos acadêmicos sobre o tema, além de narrativas em JL. O TextoVivo ainda é o site com o maior número de narrativas em Jornalismo Literário da web brasileira. Todas disponíveis para leitura e download gratuitamente. Depois, demos um passo a mais, criando o primeiro – e único – curso de pós-graduação em Jornalismo Literário do país, categoria lato sensu (Especialização). Tocamos a pós durante oito anos seguidos. Além de São Paulo e Campinas, tivemos turmas ocasionalmente em Porto Alegre, Curitiba, Goiânia e Brasília. Como tudo na vida tem um período de existência e depois, como no ciclo da existência, se dissolve, porém, a ABJL enquanto instituição está sendo extinta. Enquanto marca continua, assim como segue o curso de pós em Jornalismo Literário – com turmas em São Paulo e Curitiba, este ano -, sob minha direção e administração da minha empresa, a EPL – Educação, Comunicação e Desenvolvimento Humano, e em parceria institucional com a Faculdade Vicentina, de Curitiba.

JL – Quais os requisitos necessários para um bom “jornalista literário”?

Lima – Gostar de escrever, gostar de contar histórias, gostar de descobrir a realidade do mundo, gostar de gente para mergulhar em suas vidas com um olhar compassivo, uma mente alerta e um coração tranquilo. Depois, conhecer culturalmente bem o Jornalismo Literário – uma tradição que vem de longe, diga-se de passagem e que não começou com o “new journalism” norte-americano, como alguns pensam -, seus princípios e procedimentos. Procurar basear-se solidamente nos conceitos que dão sustento à modalidade. Não é verdade que a área é pouco identificada e catalogada pelo conhecimento acadêmico. Já temos um arsenal de conhecimento respeitável. Eu próprio tenho minha contribuição com meus livros que se tornaram referências – o Páginas Ampliadas em sua quarta edição ampliada e atualizada de 2009, o Jornalismo Literário Para Iniciantes no sistema editorial Clube de Autores -, assim como produziram obras importantes Sergio Vilas Boas e Monica Martinez, do nosso núcleo na USP. Nos Estados Unidos, em particular, há obras importantes e a International Association for Literary Journalism Studies – http://www.iajls.org – é hoje um centro global voltado a estudos do tema. Em seguida, é importante conhecer, exercitar e dominar o rico e variado arsenal de técnicas e recursos narrativos e de captação do real desenvolvidos ao longo do tempo no Jornalismo Literário. Muita gente pensa que Jornalismo Literário requer um estilo narrativo “impressionista”, ego-centrado no autor. Nada longe da verdade quanto isto. Demanda você conhecer o legado de várias gerações que foram formando a tradição do Jornalismo Literário, experimentar, descobrir sua voz autoral em meio a isso e então sim, inovar, mas sabendo quais são as balizas e os parâmetros condutores da fascinante aventura que é você escrever histórias reais com sabor, profundidade, consistência, humanização e estilo próprio.

JL – Você acha que o jornalismo tradicional deveria trabalhar mais com Jornalismo Literário? Porque?

Já na década de 1990 constatei algo que ainda hoje me deixa pasmo: o quanto a mídia tradicional – especialmente os “jornalões” diários impressos – não enxerga o óbvio: não há futuro nobre para os periódicos dessa natureza se continuarem a insistir com o jornalismo convencional, apenas informativo e opinativo, de hoje em dia. Não dá para competir dessa maneira com a velocidade dos veículos eletrônicos – rádio, web e televisão incluídos – repetindo na edição gráfica o que todo o mundo já soube por outros meios. Tem graça um “jornalão” abrir a manchete da segunda-feira informando que o time X foi campeão de um torneio importante local de futebol? Quem não está sabendo? Um marciano, talvez, um astronauta que acaba de pousar de sua missão de seis meses na Estação Espacial Internacional… Ora, a parte mais nobre do jornalismo é a narrativa sólida, contextualizada, humanizada e compreensiva da história imediata de todos os dias, de todas as horas, de toda a semana, de todo o mês, de todo o ano. Essa parte foi esquecida, na maior parte das vezes. Ao mesmo tempo, embora o jornalismo convencional tenha se modernizado no último século, isso aconteceu quase sempre unicamente de maneira cosmética: a tecnologia da informação é vasta, a linguagem plástica e visual dos veículos gráficos é muito mais estética, a informação quantitativa é apresentada de maneira muito mais interessante do que há 100 anos. Mas o conteúdo, a visão de mundo são ultrapassados. O jornalismo continua a ler a realidade com os olhos – já míopes e de lentes embassadas – que lhe deu a ciência do século XIX. Não dá para compreender o complexo mundo moderno com uma lupa de aumento focada apenas nos aspectos superficiais da realidade. A realidade, hoje, é compreendida na ciência de ponta sob foco transdisciplinar, complexo, múltiplo, multidimensional. O ser humano é visto de modo muito mais orgânico e integrado do que o paradigma experimentalista, mecanicista e reducionista do século XIX. Mas o jornalismo custa a trocar suas lentes. É um velho de roupa nova mas olhos de catarata. Precisa se renovar. E, naturalmente, um dos caminhos – não é a caixa de pandora que resolve tudo, mas é um dos elementos de uma receita complexa e múltipla – naturais, comprovado ao longo do tempo, é o Jornalismo Literário, que se moderniza e se adapta aos novos tempos.

 

JL – Há alguma coisa que você gostaria de falar e que não foi perguntada?
Lima – Completando a resposta ao item anterior: o problema disso tudo é que existe um interesse social por narrativas reais de qualidade. Se o jornalismo não souber responder a esse desafio como deve, outras áreas da comunicação vão fazer isso, pois a demanda está aí. Se não for o jornalista que responderá a essa busca social, outros profissionais cobrirão o espaço, pois a sociedade requer que histórias bem contadas da nossa história em desenvolvimento, do nosso passado e do nosso futuro continuem a ser produzidas. O interesse formidável de parte do público brasileiro por boas biografias é um exemplo dessa demanda, assim como a busca de bons livros-reportagem nas estantes das livrarias. A exibição contínua de documentários de qualidade nas salas de cinema o ano inteiro – algo que acontece em São Paulo – é um sinal disso. Há uma parte considerável do público que pede histórias reais fortemente centradas em seres humanos de carne e osso que o ajudem a compreender o que é este nosso mundo em veloz efervescência de mutação, os dramas da existência humana, o passado que construímos, a consciência que precisamos conquistar para a co-construção da civilização planetária e sustentável que precisamos. Se o jornalismo e o jornalista não crescerem para a grandeza deste desafio, tristemente, para nós, serão outros os escritores e os meios que estarão tecendo a história e a memória dramáticas deste nosso século XXI neste planeta maravilhosamente lindo e perigosamente ameaçado pela cegueira da nossa civilização.

Anúncios

Um pensamento sobre “JL Entrevista: “Existe um interesse social por narrativas reais de qualidade”

  1. Pingback: Autor Edvaldo Pereira Lima é entrevistado no site Jornalismo Literário » Editorial Clube de Autores

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s