O que é Jornalismo Literário?

*Por Nei Duclós

Jornalismo literário é a abordagem pessoal de um acervo coletivo. Por ser coletivo o acervo, essa abordagem pessoal tem um compromisso. Tudo o que aparece num enfoque tradicional da notícia está contido num texto de jornalismo literário. Portanto, jornalismo literário não é superficialidade, literatice, romantismo ou alienação. Trata-se da confecção de uma notícia com alta voltagem de criação de linguagem, como acontece na literatura. Não é, como se costuma dizer, “poesia”. É jornalismo para seduzir o leitor, informando-o sem aborrecê-lo e atraindo-o para a essência dos fatos. E qual é a essência dos fatos? É a versão compatível com a lógica, pautada pela ética, que contribui para o conhecimento de quem lê. Não se trata, portanto, de perda de tempo.

Deve ficar claro que o jornalismo literário não é dourar a pílula, enfeitar o bolo com a cereja, mas ao contrário, destrinchar a receita sem cair no ramerrão da mesmice. “Por que você colocou os ovos com casca e tudo na panela?” perguntou o trapalhão Dedé Santana. “Porque eu já sei o que tem dentro”, respondeu Didi. Saber de antemão é a ilusão recorrente da mídia, que repete sem cessar os mesmos fatos descritos todos da mesma forma. É preciso sempre recorrer os colunistas, aos cronistas, aos editorialistas para saber algo mais, ou, para saber do que realmente se trata.

O problema é que muitos autores que usam os veículos diariamente para disseminar suas idéias, furos e opiniões, também costumam cair na mesma armadilha e pouco contribuem para esclarecer os acontecimentos. É porque o grosso da reportagem, em geral, abriu mão dessa composição criativa dos fatos num tecido (texto) que possa não apenas destrinchar os principais elementos, mas de emocionar, impactar, alertar, que são formas de informar. Com poucos repórteres, dito especiais, estão envolvidos em algo mais ou acima dessa média que provoca bocejos, fica difícil para os articulistas darem um passo à frente. Quando o desafio é pequeno, os desdobramentos são igualmente precários.

Se por exemplo, a reportagem é feita por um grande criador, que está no front e usa todo seu arsenal de criatividade para compor sua matéria, um colunista vai ter de caprichar para não repetir o que já foi publicado, ou pagar o mico de nada acrescentar ao que a mais comum das criaturas do jornalismo, a cobertura diária dos fatos, já resolveu de maneira satisfatória. Mas a tendência é anular os repórteres para que colunistas medíocres possam ter vez no cardápio da mídia. Olhando a lista de nomes de alguns luminares dos espaços nobres dos jornais, podemos notar o quanto isso é verdade.

Ao longo da minha vivência nas redações, acumulei alguns exemplos de jornalismo literário que não canso de repetir. Tínhamos militantes notórios nessa área nos anos 60 e 70, que publicavam quase diariamente nos jornais, como era o caso de Marcos Faerman, Octavio Ribeiro, Caco Barcellos, Audálio Dantas. Nas revistas semanais, mensais e também nos semanários, sobravam exemplos desse jornalismo com nomes como Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalili, entre tantos outros, apoiados por grandes fotógrafos, de Walter Firmo a J.B Scalco. Mas esses exemplos podem ser conseguidos facilmente na internet.

Prefiro aqui destacar algumas reportagens que considero as que mais tiveram impacto para mim. Uma delas foi “Sabotamos a Central Nuclear”, reportagem de Caco Barcellos publicada na Repórter Três, revista que teve apenas alguns números da Editora Três. Caco inscreveu-se como operário e conseguiu, com uma máquina fotográfica simples, mostrar o secretíssimo canteiro de obras de Angra I, guardado ciosamente pela ditadura dos anos 70. Outra foi a reportagem de Edenilton Lampião para o tablóide de Samuel Wainer, Aqui São Paulo, sobre o psiquiatra que curou Nelson Gonçalves do vício da cocaína e que morava num dos casarões abandonados da Avenida Paulista.

Inumeráveis reportagens do jornalismo literário viraram livros, ou foram concebidas como livros, no rastro dos grandes do newjournalism, como Truman Capote de A Sangue Frio. É o caso de Quarto de Despejo, o diário da favelada Carolina de Jesus, objeto de uma matéria de Audálio Dantas. Sempre acho que tudo o que se produziu de alta qualidade autoral e foi publicado na mídia deveria ser reunido em livro. Hoje se faz compilação de crônicas, como vemos a toda hora. Por que não pegar essas jóias que nos deslumbravam para as novas gerações saberem do que se trata, e as antigas possam reler, emocionadas, o que fez a cabeça há tempos?

Mas o que pega é saber como transformar a notícia do dia, que faz parte do acervo coletivo citado acima, em algo inesquecível. A chave está dentro de você mesmo. Não ceda aos ditames dos manuais, mesmo que você mantenha fidelidade aos fatos. Ser jornalista não significa fazer como eles mandam. É preciso achar a embocadura do texto enquanto os dados são recolhidos, investigados, pesquisados. Não basta empilhar palavras, é preciso articulá-las. Mas isso já está dito em outros textos meus, como O Esqueleto imantado e os demais artigos contidos na seção Edição (ou Redação sem máscara) deste site.

Nas várias redações onde trabalhei e colaborei, sempre procurei exercer o jornalismo literário: na Ilustrada da Folha de S. Paulo, revista Bravo!, Caderno 2 do Estadão, seção de livros da Veja, IstoÉ, Zero Hora, revista Senhor, entre muitas outras. No Diário da Fonte, continuo no mesmo ritmo. Além dos poemas, dos contos, das resenhas, dos ensaios, das crônicas mais gerais, existe uma série de textos que abordam os fatos e que trazem essa abordagem pessoal do acervo coletivo que está rodando na mídia. Ou que eu busco por meio da pesquisa e das entrevistas. Do meu trabalho, destaco o texto “Eclipse na grande área”.

Meu trabalho atual como colunista e ensaista do Diário Catarinense tem esse enfoque, em que a informação, a análise e a criação literária convivem no mesmo texto. Isso se estende para outros veículos onde colaboro, como a revista virtual Cronopios e o Digestivo Cultural. Há também minha coluna no excelente jornal Momento de Uruguaiana, que está sendo editado pelos casal de escritores Ricardo Peró Job e Vera Ione Silva, que se chama exatamente Jornalismo Literário. Momento está dando banho de jornalismo na fronteira: feito com competência e paixão, não cai nas armadilhas da comunicação apartada dos grandes centros e está se revelando um conjunto de acertos.

Todos os recursos da linguagem: esse é o tesouro que precisa ser acessado diariamente no trabalho que exercemos por vocação e destino.

*Nei Duclós é jornalista, escritor, poeta e bacharel em História. Com mais de 40 anos de carreira no jornalismo, trabalhou e colaborou nos jornais Folha da Manhã, Folha de S. Paulo, Zero Hora e Diário Catarinense e nas revistas IstoÉ, Bravo!, Brasil 21, Senhor e Empreendedor. Publicou três livos de poesia – “Outubro”, “No meio da rua” e “No mar, veremos” – um livro de contos e crônicas “O refúgio do príncipe” e um romance: “No universo baldio”. Publica contos, crônicas, poesias, análises jornalísticas, entre outros temas no blog Outubro.  O texto acima foi escrito em 2009. 

 

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