Quando a reportagem é romance

Por Felipe Pena*.

Ficção. Exatamente a palavra que não cabe no conceito de romance-reportagem. Não pode haver dúvida. Nesse tipo de narrativa, o autor não inventa nada. Ele se concentra nos fatos e na maneira literária de apresentá-los ao leitor. Trata-se do cruzamento da narrativa romanesca com a narrativa jornalística. O que significa manter o foco na realidade factual, apesar das estratégias ficcionais.

Claro que os conceitos de realidade e ficção não são absolutos. O próprio Jornalismo Literário não se baseia na veracidade, mas sim na verossimilhança, ou seja, na mimetização da realidade. Entretanto, preciso deixar bem clara a diferença entre o romance-reportagem e a ficção-jornalística. Enquanto o primeiro usa adereços literários para aprofundar a abordagem sobre fatos reais, a segunda apenas parte desses mesmos fatos para construir seu enredo, que será complementando por novas narrativas inventadas pelo autor.

Em outras palavras, quem faz romance reportagem busca a representação direta do real por meio da contextualização e interpretação de determinados acontecimentos. Não há preocupação apenas em informar, mas também em explicar, orientar e opinar, sempre com base na realidade. Pode até ser que a narrativa se aproxime da ficção, mas isso nunca é feito deliberadamente, ao contrário da ficção-jornalística, que tem na inventividade um componente essencial de suas estratégias.

Como exemplo de romance-reportagem, posso citar os livros “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, de José Louzeiro, e “Corações Sujos”, de Fernando Morais. Louzeiro é um conhecido roteirista de cinema, que domina as técnicas narrativas. Seu livro tem um ritmo ágil e abusa dos diálogos para contar a história de um bandido de classe média cuja morte na prisão, em 1975, acabou revelando um grande esquema de corrupção na polícia carioca. Fernando Morais, por sua vez, retrata a organização clandestina Shindo Renmei, que se recusou a aceitar a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial e promoveu uma série de assassinatos no Brasil.

Ambos os livros podem ser lidos como romances, embora tenham compromisso fundamental com os fatos. Os autores realizaram pesquisas exaustivas, fizeram dezenas de entrevistas e se propuseram a contar a verdade, sem inventar nada. Da proposta à meta, talvez possa haver uma discussão de viabilidade. Mas a intenção define o estilo. Os temas são abordados de forma objetiva, ainda que os ângulos subjetivos modulem a narrativa.

“Por um lado, não é jornalismo, uma vez que é romance; por outro, não é literatura, uma vez que é reportagem.”

Há vários outros exemplos que podem ser citados. Só para continuar no Brasil, vale lembrar de “Rota 66”, de Caco Barcellos; “Cabeça de Papel”, de Paulo Francis; “Reflexos do Baile”, de Antonio Callado; e “A Festa”, de Ivan Angelo. E eu ainda poderia continuar indefinidamente.

Para finalizar, mais um pitaco na conceitualização do tema. Segundo o teórico da comunicação Rildo Cosson, um dos poucos a escrever um livro sobre o assunto, o romance-reportagem é um gênero autônomo situado entre dois discursos, o literário e o jornalístico. “Por um lado, não é jornalismo, uma vez que é romance; por outro, não é literatura, uma vez que é reportagem.”

Cosson admite a dificuldade de classificação genérica nos tempos atuais, ditos pós-modernos, em que há uma diluição das fronteiras epistemológicas, ontológicas e estéticas. Entretanto, acredita que isso reforça ainda mais a necessidade de enquadramentos. Ele cita o crítico Davi Arrigucci Jr., para quem o romance-reportagem está formalmente ligado ao naturalismo e tem fins alegóricos, chegando à conclusão que há duas formas de abordar o conceito: uma a partir de modos de narrar e outra pela identificação de tendências.

A primeira delas é mais fácil de visualizar, pois concentra-se no próprio discurso, ou seja, nas características romanescas e jornalísticas presentes na linguagem. A outra no entanto, é um pouco mais complexa e promove novas divisões. É assim, por exemplo, que são identificados os romances-reportagem sobre a ditadura militar no Brasil, uma tendência presente em livros como o “O que é isso, companheiro?”, de Fernando Gabeira, e “Os Carbonários” de Alfredo Sirkis. O crítico Silvano Santiago chama essas obras de parajornalismo, pois seu principal fim é a denúncia sociopolítica.

Mas Silvano adverte que a censura não pode ser tomada como explicação direta para o fenômeno. A resistência às arbitrariedades do regime militar representa apenas a identificação de uma tendência. Nas palavras de Davi Arrigucci Jr. , a verdadeira marca do romance-reportagem é “o desejo de representar diretamente o real”. Uma espécie de neonaturalismo que retoma o discurso social.

“Em lugar de atualidade, o jornalismo de profundidade deve buscar ler a contemporaneidade”.

O conceito poderia estar contido em outro, mais abrangente, que é o livro-reportagem. Mas não haveria distinção entre o uso deliberado ou não da ficção. Segundo o crítico Edvaldo Pereira Lima, no entanto, o livro-reportagem engloba apenas o real factual, seja na veracidade ou na verossimilhança, já que seus procedimentos operacionais são jornalísticos. Mas para melhor definir o termo, ele utiliza a explicação da professora Nanami Sato, para quem a definição está contida em uma simples recomendação aos profissionais: “Em lugar de atualidade, o jornalismo de profundidade deve buscar ler a contemporaneidade”.

 

*O trecho acima faz parte do livro Jornalismo Literário (Editora Contexto), de Felipe Pena, e pode ser encontrado entre as paginas 102 e 105 no capítulo intitulado “O romance reportagem”. 

Jornalismo Literário, o livro

Jornalismo Literário, o livro

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