Realidade, a história que virou lenda

*Por Rodrigo Vianna.

Quase dois meses ele ficou à minha espera. Até que eu finalmente me rendi, e tomei-o nas mãos. Foi uma relação voluptuosa: 48 horas de paixão. Li de cabo a rabo, pulando páginas, avançando capítulos, voltando depois pra retomar.

Enviado pelo Palmério Dória, o livro chegara pelo correio, precedido de um bilhete: “o Myltainho pediu pra lhe enviar…” Myltainho foi um dos jornalistas que fizeram história na revista “Realidade”. Mylton Severiano é o nome dele. Vive hoje em Florianópolis, não o conheço pessoalmente.

Difícil explicar que naquela época da “Realidade” (anos 60) os jovens jornalistas não sonhavam em virar apresentadores de TV, nem colunistas pra falar sobre celebridades. Havia uma fome de Brasil. O olhar era para as histórias desse país profundo e desigual. Um país rico, estranho: manancial de histórias à espera de que alguém as contasse.

Não era uma revista de esquerda a “Realidade”. Mas no fundo era. Feita dentro da Abril, graças à persistência de Paulo Patarra (maestro), Sérgio de Sousa (primeiro violino do bando que escrevia por música) e de tantos outros craques. E graças à visão de Robert Civita. Sim, ele mesmo. Na época, não tinha se rendido ao pensamento raso da direita americanófila (ou então disfarçava bem?). Não era refém de cachoeiras e policarpos.

Myltainho conhece bem toda a história. Trabalhava na equipe do Serjão: eles eram da “cozinha” da “Realidade”, faziam o chamado “copydesk”. Pegavam textos geniais de gente como o (futuro) escritor João Antônio, ou o psicanalista-repórter Roberto Freire (mais conhecido como “bigode”) e davam polimento. Jogavam fora os excessos, sem que cada texto deixasse de estampar a personalidade do jornalista que o escrevera. Não era a pasteurização da Veja. Não. E com cuidado visual, fotos lindas, diagramação sóbria mas saborosa.

Paulo Patarra, pouco antes de morrer, deixou pro Myltainho uma caixa com as memórias parciais (sempre são) sobre a “Realidade”. Myltainho fez o “copydesk” no texto do velho chefe, mas também entrevistou dezenas de personagens e ex-colegas, e compôs a gigantesca reportagem sobre a história da “Realidade”. Livro no estilo da ”Realidade”. Vai escrever bem assim na Ladeira da Memória!

Patarra comandava tudo. Montou uma equipe de “loucos”. Alguns já experientes. Outros jovens como o Hamilton Almeida Filho (HAF): filho de um trapezista e de uma bailarina de circo, morreria de Aids nos anos 90. O arisco repórter HAF (que não fora criado pelos pais biológicos, mas por um militar meio comunista no Rio) formava dupla na “Realidade” com um tal Paco, o Paco Maluco – que mais tarde ficaria conhecido como Paulo Henrique Amorim. Ele mesmo. Também estava entre os “loucos” do Patarra. HAF e Paco vieram juntos do Rio pro bando da “Realidade” paulista. Paulistana, aliás, mas brasileiríssima.

Era revista feita por gente de esquerda, o que não quer dizer que eram jornalistas necessariamente da esquerda vinculada a partidos (alguns até eram, e Patarra sabia lidar com isso). Gente de esquerda porque gostava do povo brasileiro, questionava, queria liberdade e sabia que política não se faz só em assembléia. Discutir pílula anticoncepcional, Deus, religião, afetos, família e Educação… Discutir tudo isso com seriedade, abrindo espaço para o brasileiro comum contar sua história, isso tudo era (e é) fazer política. Isso é ser de esquerda. E isso a “Realidade” fazia. Era como se eles dissessem, a cada edição: “aqui tem um bando de loucos”. Loucos que gostavam do Brasil, mas não eram provincianos, olhavam para o mundo.

A revista sabia “negociar” com os milicos. Paulo Patarra trouxe pra equipe o Mercadante (jornalista de origem lacerdista, talentoso, já falecido – um raro “conservador” entre as feras ”comunas”) pra cuidar disso. Havia reportagens que aparentemente louvavam Castelo Branco, Costa e Silva. Mas nas entrelinhas, debochavam sutilmente da ditadura. E até Carlos Lacerda, imaginem, foi uma espécie de repórter da “Realidade”. Cabia tudo isso lá.

Na capa do livro, há uma foto com vários dos loucos reunidos. É a imagem que abre esse texto. A maioria já morreu. Dos que estão ali, conheci só dois. Um é o José Hamilton Ribeiro: eu era um jovem repórter na Globo quando via o Zé Hamilton caminhando pela redação da praça Marechal nos anos 90, fechando matéria pro “Globo Rural”, onde ele está até hoje. O Zé com aquele jeito matreiro, de quem se finge de bobo… Myltainho conta que era tática dele – ia entrevistar e se fazia de caipira bobão, o entrevistado se expunha, contava tudo, e aí o Zé mostrava sua genialidade na hora de escrever o texto final; na TV, consegue fazer o mesmo.

O outro, o Sérgio de Sousa. Em 2007, logo depois que saí da Globo, a turma da “Caros Amigos” (criada pelo Serjão) me chamou pra uma conversa, queriam saber mais sobre minha saída. Fui apresentado à fera na redação antiga da “Caros” na Vila Madalena. Ele me fez falar muito, e quase não abriu a boca. Olhar provocador. Poucas palavras. Morreria um ano depois. Serjão foi um dos loucos da “Realidade”, e levou parte daquela saudável loucura pra “Caros Amigos” – que durante algum tempo foi uma espécie de “Realidade” sem a grana da Abril, mas também sem as amarras da Abril. Morreu pobre. Sobre ele, uma filha diz no livro do Myltainho: “não deixou herança, mas deixou lembrança”.

A época gloriosa da “Realidade” foi entre 66 e 68. Com o AI-5 chegando, os Civita desistiram de desafiar a ditadura. Tiraram Patarra da direção da revista. E “Realidade” foi minguando… Sobre a foto, um dado curioso: ela foi tirada quando a equipe já tinha se desfeito. Com a saída do Patarra, a turma pediu demissão coletiva (na verdade, alguns ficaram por lá, se arrastando, já sob nova direção). E se reuniu algumas vezes: numa delas, clic! Significativo que a foto seja da equipe reunida quando já não fazia mais “Realidade”. Um símbolo, talvez, de que o bando de loucos não precisava seguir trabalhando junto para que o espírito de “Realidade” aparecesse por aí.

Vários já morreram. Outros se firmaram em áreas diversas. Teve gente que virou jornalista de TV e hoje espalha a rebeldia de “Realidade” entre os loucos da internet (Paco – PH Amorim), outros viraram empresários (caso do Woile – bem comportado numa turma em que dominavam os excessos; hoje é donos da produtora GW, que faz campanhas eleitorais dos tucanos).

Outros, ainda, seguem contando histórias. É o que fez o Myltainho. Contou a história de quem gostava de contar história. O Myltainho mostra que Patarra é que escolheu Robert Civita para ser o diretor geral da publicação. Caso único: o empregado nomeia o filho do patrão (Victor Civita) como chefe. Patarra sabia que o jovem Robert Civita queria (até por vaidade) criar algo novo. Deu certo.

Frei Betto também trabalhou ali. Myltainho conta que Patarra mandou Betto pra Colômbia – com diárias polpudas e tempo de sobra pra escrever sobre o país. O repórter-frei voltou e queria prestar contas, devolver a grana que não havia gasto. Patarra: “rapaz, não tenho culpa que você não saiba gastar a verba com mulher e bebida, se sobrou dinheiro não quero saber, eu quero a reportagem”. É transcrição mais ou menos livre…

João Antônio ficou um mês no porto de Santos. A idéia era que escrevesse uma reportagem com cara de conto-crônica. O texto final é genial. Myltainho transcreve trechos no livro.

Quem gosta de jornalismo e do Brasil não deve deixar de ler… Sem saudosismo, porque os tempos são outros. Mas mirando “Realidade” como exemplo de que, com criatividade e vontade, dá pra fazer muito. Seja na imprensa corporativa, seja num blog. Ou não dá mais?

Realidade, o livro de Mylton Severiano

Realidade, o livro de Mylton Severiano

 

Texto publicado originalmente, em 15 de abril de 2013, no blog Escrevinhador do jornalista Rodrigo Vianna, com o título de “Aqui tem um bando de loucos”.

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