Tom Wolfe: “Em primeiro lugar me considero jornalista”

*Por Lucas Arraut, em EL PAÍS Brasil.

Tom Wolfe há um ano vem promovendo seu mais recente romance – alguns dizem que será o último –, Sangue nas Veias (Rocco). Aparenta os 82 anos que tem e, embora conserve a língua afiada quando menciona algum inimigo, projeta uma afabilidade de vovozinho de uma história sulista. Tecnicamente, é isso que ele é. Seu discurso, sereno, soa como o oposto dos seus relatos sincopados e onomatopeicos. Em um salão barcelonês, um dos pais do Novo Jornalismo amaldiçoará hoje um par de vezes a tecnologia digital, mas não sem antes perguntar com candura para que serve cada aparelho que nosso fotógrafo arrasta. Nem mesmo uma manhã intensa, da qual ele é o astro, parece reprimir sua proverbial curiosidade.

Tom Wolfe jornalismo literário

Foto: William Gaff

 

Pergunta. Se agora mesmo topasse com o Espírito Santo da Objetividade, o que lhe diria?

Resposta. “Continue assim, rapaz!”. Os desconstrutivistas vituperavam contra mim, empregando um argumento essencialmente marxista: “Você não entende que o establishment controla você a tal ponto que controla o seu vocabulário? Você acha que diz a verdade, mas no fundo só está usando as palavras deles”. Há muitos intelectuais que se referem à minha como uma “suposta objetividade”, como se quisessem me dizer que ela oculta uma preferência da qual nem me dou conta.

P. De todos os indesejados efeitos que teve o Novo Jornalismo na profissão, qual é o que mais lamenta?

R. O abuso da primeira pessoa do singular. Uma falha que eu mesmo cometi. Meu primeiro texto, Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, sobre a cultura automobilística da Califórnia, eu comecei escrevendo: “A primeira vez que vi carros tunados…”. A menos que você seja parte da trama, acho que é um erro escrever na primeira pessoa.

P. Poderia ter dito isso a seu arqui-inimigo íntimo, Norman Mailer.

R. Ah, Norman Mailer, descanse em paz. Sua obra ficou distorcida demais por essa sua insistência em fazer parte da narrativa. Pelo menos teve a decência de trocar o “eu” por “Norman Mailer” quando escreveu sobre a alunissagem da Apolo XI [em Of a Fire on the Moon], mas é incrível o pouco que o autor dessa história intervinha na ação! Mas se ele nem conseguiu subir na nave!

P. Alguma vez lamentou não ter feito as pazes com ele antes da sua morte?

R. De jeito nenhum. Não fui suficientemente mesquinho com ele. Fiz tudo o que pude para sê-lo mais, mas acredito que não foi suficiente.

P. Como alguém aparentemente tão simpático como o senhor conseguiu fazer tantos inimigos?

R. Obrigado. Sou simpático, essa é a verdade. Pois você precisa ver com o que escreve e sobre quem. No começo, eu escrevia sobre temas ditos pop. Graças a Deus, essa palavra saiu de moda. Sabe, as pessoas eram jovens e faziam coisas desenfreadas e loucas, e se supôs, pelo que eu escrevia, que eu deveria ser muito progressista. Mas um belo dia decidiram que não, que eu era um conservador. E isso ainda permanece.

P. Por isso cunhou a etiqueta de radical-chique, com a qual ria dos coxinhas progressistas?

R. Começaram a me chamar de conservador a partir do momento em que relatei a festa organizada por Leonard Bernstein e seus amigos para arrecadar recursos para os Panteras Negras. Muitos me perguntaram: “Como você pôde fazê-los ficarem mal vistos?”. Eu? Por acaso fui eu quem convidou os Panteras Negras para virem à minha casa me entreterem? Quem fez isso foram eles, porque acharam que era muito chique. Não sei se agora alguém teria escrito algo assim sem ser desinfetado.

P. Refere-se ao politicamente correto?

R. É terrível. O chamado politicamente correto é marxismo desinfetado. Olhe esses intelectuais, os supostamente mais cultos, submetidos à correção política, a esse marxismo rococó, porque acham que não fica bem se opor a ele.

P. Sei que gosta de classificar os muitos insultos que já recebeu. De qual está mais orgulhoso?

R. Do de ultraconservador. Já percebeu que não existem mais conservadores? Se for, então é diretamente um ultraconservador. Qual você acha mais engraçado?

 

P. Um que o comparava a uma criança de seis anos vendo um filme pornô: dizia que o senhor podia acompanhar os movimentos dos corpos, mas que não entendia os matizes. Um comentário atribuído a Robert Motherwell, o artista. É bastante citado.

R. Isso foi de quando escrevi um livrinho chamado A Palavra Pintada. Era uma pequena história da arte moderna. Mas acho que não a levei muito a sério. A Artforum, uma revista de muita reputação nos EUA, que se considera a elite da crítica artística e do conhecimento intelectual, começou um artigo sobre o meu livro dizendo que eu era um imbecil. E, embora você dignifique uma pessoa apenas por falar dela, eles chegavam a dizer que eu era uma pessoa sem a menor importância. É possível que eu também me sinta um pouco orgulhoso disso.

P. Não se surpreende de quanta gente se dispõe a compartilhar toneladas de informação com o senhor quando o senhor apura uma reportagem? Inclusive teorizou sobre isso, não sei se ironicamente: chama isso de compulsão informativa do ser humano.

R. É efetivamente um problema interessante. E real [risos].

P. O senhor já se sentiu culpado por abusar da bondade de alguma fonte? Ou, pelo contrário, acha que é assim que se massageia um ego, conforme a teoria warholiana dos 15 minutos?

R. É uma questão de status. Se você decide contar a alguém algo que a pessoa quer saber, você aumenta seu status. Quando um carro interrompe meu passeio de verão por Long Island para me pedir uma indicação, estendo-me até esgotar a paciência do pobre motorista. Porque me divirto: eu sei algo que ele não sabe! E estou demonstrando isso! Em troca, se desconhecer a resposta, vou soltar: “Quem você acha que eu sou, pelo amor de Deus? O geógrafo do povo?”. Digamos que essa teoria é minha pequena contribuição à ciência da psicologia.
O jornalista, nativo de Richmond (Virgínia), em 1966, passeando por uma rua de Manhattan como se fosse parte do mobiliário urbano

P. O que opina do jornalismo ativista de Glenn Greenwald, Michael Moore e outros?

R. O que posso dizer de Michael Moore é que consegue fazer de um jeito divertido. E tampouco pretende se passar por objetivo. Não compartilho muitas das suas opiniões, mas tiro o chapéu, benza Deus. E em relação aos outros… Não quero minimizar meu trabalho literário, mas em primeiro lugar me considero jornalista. Quando as pessoas criticam meus romances por serem muito jornalísticos, eu lhes digo que não são o suficiente. É uma obrigação, embora poucos escritores considerem assim. E acredito que a história de Edward Snowden seja maravilhosa para o jornalismo.

P. Como abordaria uma pauta sobre ele?

R. Tentaria me aproximar dele e, se não conseguisse, dos seus amigos. Averiguar suas verdadeiras motivações. Eu não diria que Snowden é um traidor, mas sim que atuou de forma traiçoeira. Sabia que estava ferindo seu país, mas ao mesmo tempo tinha ideais. Essas ferramentas de investigação em nome da nossa segurança que ele trouxe à luz… Trata-se de uma informação com muitíssimo valor! Não podemos nem imaginar a quantidade de dados com o qual esses sistemas lidam. Chegará um dia em que você e eu não poderemos nos sentar em um salão como hoje sem que ninguém nos escute. Sabe o que deveríamos fazer?

P. O quê?

R. Voltar para o analógico! Simples assim. Abandone agora mesmo todo o digital! Você verá como ficará grato.

P. A desconexão digital está na ordem do dia, acredite.

R. Então diga isso também ao seu fotógrafo. [Wolfe convence nosso fotógrafo a fazer pelo menos metade da sessão com câmera analógica.]

Tom Wolfe em 1966. Foto: Jack Robinson/Getty Images

Tom Wolfe em 1966. Foto: Jack Robinson/Getty Images

P. Em Sangue nas Veias o senhor tornou a esquartejar sem muita piedade uma grande cidade norte-americana. Todo mundo continua odiando todo mundo. Uma tensão que parece ir além do racial e do cultural. Miami está a ponto de explodir?

R. O turismo costumava ser a primeira indústria na cidade. Agora são o transporte e os bancos, e ambos têm a ver com os hispânicos. Boa parte da atividade bancária latino-americana acontece em Miami, porque o sistema norte-americano é mais seguro que o de seus países de origem. Você sabia que a filial do Federal Reserve em Miami manuseia mais milhões em espécie do que todo o resto dos escritórios do Fed no país somados? Isso é porque todas as transações de droga são em espécie. Possivelmente não está tão descontrolado agora, mas ilustra como é importante esse negócio em Miami.

P. Compartilha o mal estar dos dissidentes cubanos com o aperto de mãos entre Raúl Castro e Barack Obama?

R. Foi mera cortesia superficial. Quantos presidentes podem negar um cumprimento a outro presidente? Hoje há muitos cubanos na Flórida que não se sentem assim. São de terceira geração, e continuam sendo anticastristas porque suas famílias o são, mas acredito que já não seja algo tão visceral.

P. Ficou irritado por se sentir parte de uma minoria étnica e linguística em seu próprio país enquanto preparava o livro?

R. Não. Sabia que logo iria sair dali. Mas quis refletir essa situação no primeiro capítulo do romance, em que minha figura central, o policial Néstor Camacho, sente desprezo por dos dois companheiros anglo-saxões com os quais faz patrulha de barco. Despreza-os, entre outras coisas, porque não estão em forma. E, ao mesmo tempo, seus colegas empregam a palavra canadense para se referir aos cubanos e poder amaldiçoá-los sem que Néstor perceba, embora ele também faça isso.

P. Em que outras vezes se sentiu parte de uma minoria?

R. Bom, estive na pior parte do Bronx, que é como dizer a pior parte de Nova York, para escrever A Fogueira das Vaidades [Rocco]. Ali estava claramente em minoria. E descobri que nessas circunstâncias nem sequer era preciso alterar minha forma de me vestir. Por mais que eu me camuflasse, não seria confundido com alguém do bairro. Quem vou enganar?

P. Pensava que o senhor não usasse seu habitual terno branco quando trabalha.

R. Não, claro, não usava o terno branco. Isso seria procurar briga. No Bronx, aprendi que você está seguro enquanto estiver escoltado por alguém bem conhecido na comunidade. Mas as pessoas tampouco vagam por ali procurando alguém para roubar ou matar, sabe? Pelo menos não voluntariamente.

P. Até que ponto o senhor está disposto a arriscar sua integridade física pelo sagrado nome do jornalismo?

R. Não penso nesses termos. Quando segui os Merry Pranksters, um grupo de hippies sobre os quais escrevi [no clássico Ponche de Ácido Lisérgico], eles se entupiam de LSD e metanfetamina. Não sei se você já esteve perto de alguém que use metanfetamina. Mais do que dar medo, faz você se sentir estranho. Se você vê um viciado fazer um desenho de um soldado, ele não para de acrescentar detalhes, e ao final o que resulta é um grande garrancho preto e espesso. Nunca vi nada igual.

P. Experimentou muito com essa droga enquanto escrevia a narrativa?

R. Não, nunca. Tinha lido e ouvido demais sobre bad trips, experiências terríveis. Não vou dizer que tinha medo, mas, depois de entrevistar tanta gente que consumia, inclusive no momento em que estavam chapados…

P. Quer dizer que não experimentou drogas na ocasião ou que nunca experimentou?

R. Nunca. Há quem esteja convencido de que consumi LSD em alguns momentos da minha carreira. Houve gente desse mundo que me colocou coisas na comida, mas não LSD, graças a Deus.

P. Coisas na comida?

R. Uma noite achei que sim, porque comecei a alucinar loucamente, mas afinal era outra droga, não recordo o nome. Era poderosa, mas não durou oito horas, como o LSD. Uma das coisas boas do jornalismo é que lhe força a fazer coisas atípicas, mas ao mesmo tempo obriga você a se manter sóbrio.

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