Especial Revista Realidade: as fontes como personagens do Brasil

O blog “JL” vai republicar trechos do livro “Realidade Revista”, feito pelos jornalistas José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro. A obra, lançada em 2010, pela editora “Realejo Livros”, republica as principais matérias da revista, na visão dos autores, e intercala entre os textos, análises e opiniões sobre o contexto histórico, os bastidores e jeito de contar histórias da revista que marcou o jornalismo. Esses bastidores serão publicados aqui, para os leitores do blog e amantes da boa leitura jornalística. Os trechos publicados, cerca de 20% do livro, visam ainda estimular a compra da obra completa que relembra os tempos áureos da Revista Realidade. A seguir um trecho, escrito por Ligia Martins de Almeida,  que mostra a valorização que a publicação dava às fontes, anônimas ou celebridades, sempre transformando-os em personagens. Confira: 

O FORTE DE REALIDADE, ao falar de gente, eram os desconhecidos como Olga, a mãe de santo baiana, ou o velho Pedro Teófilo, jangadeiro que acordava de madrugada e ia para o trabalho vestindo camisa esfarrapada e calça furada, personagens que o psicanalista e jornalista Roberto Freire dissecava para os leitores. Em vez de complicar os textos com termos psicológicos, Roberto usava uma linguagem simples e emocionada, que fazia os leitores se sentirem conhecidos de longa data dos personagens. As pessoas simples entravam no item gente, mas acabavam dando o tom a toda a revista. Se o assunto fosse economia, era preciso achar um personagem que fosse o fio condutor da matéria. Se a reportagem fosse sobre transplantes, dentro do tema saúde, a reportagem iria buscar uma pessoa que tivesse sobrevivido a esta cirurgia. Ser era educação no interior, descrever o trabalho de uma professora seria a melhor maneira de falar das condições de trabalho fora das grandes cidades. Os dados oficiais eram diluídos no texto ou editados em textos separados, em boxes estatísticos. Também foi assim a discussão sobre as famílias de baixa renda: “Como esta família vive com um salário mínimo”.

As celebridades – que garantiam as vendas das revistas semanais – nunca foram o prato predileto de Realidade, embora também não fossem desprezadas. Famosos como Pelé, dizendo que não gostava de perder nem nos treinos, e Chico Buarque, desmentindo o mito de que não gostava de falar em público, também entravam na pauta da revista, mas como um assunto a mais, entre outros tantos.

O povo brasileiro, enfim, era o grande personagem de Realidade. A busca era por personagens importantes que, por sua biografia, poderiam também ter se transformado em celebridades, mas ainda eram totalmente desconhecidos. Junto com os personagens vinha uma descrição detalhada do seu ambiente, levando os leitores a entrar no cenário para então conhecer a pessoa.

 

Celebridades e anônimos tinham o mesmo tratamento (de texto) eram transformados em personagens por meio de uma narrativa descritiva e subjetiva

Celebridades e anônimos tinham o mesmo tratamento (de texto) eram transformados em personagens por meio de uma narrativa descritiva e subjetiva

 

 

 

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