Perfil sobre médico ganha Prêmio Clóvis Barbosa de Jornalismo Literário

A edição 2014 do prêmio nacional Clóvis Barbosa de Jornalismo Literário premiou o perfil “O Homem da Segunda Chance” sobre o cirurgião cardiovascular que realiza a captação de corações e transplantes no Incor (Instituto do Coração), em São Paulo, Ronaldo Honorato, escrito pela jornalista pós-graduada em JL, Andréa Ascenção.

O prêmio Clóvis Barbosa de Jornalismo Literário é uma idealização do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Manaus (AM). A avaliação dos trabalhos inscritos foi feita por uma comissão julgadora formada por três jurados (professores da Universidade Federal do Amazonas e escritores). Segundo o órgão, o prêmio tem o objetivo de “promover, incentivar e orientar autores locais e nacionais”. O valor do prêmio Clóvis Barbosa foi de R$ 5 mil.

O perfil

O relato vencedor “O Homem da Segunda Chance”, de Andrea Ascenção, apresenta o dia-a-dia do médico que convive com o dilema moral da morte de alguns (potenciais doadores de órgãos) e vida de outros (potenciais receptores de órgãos doados). O texto, carregado de uma narrativa carregada de técnicas da literatura, explora o homem por trás dos fatos e coloca o leitor em uma perspectiva privilegiada para saborear a história.

Recém pós-graduada em Jornalismo Literário, Andréa Ascenção, já ganhou seu primeiro prêmio literário

Recém pós-graduada em Jornalismo Literário, Andréa Ascenção, já ganhou seu primeiro prêmio literário

A obra, apesar do prêmio, ainda é inédita. A jornalista que já tem um livro publicado (Ultraje a Rigor: Nós vamos invadir sua praia – livro biográfico da banda de rock sucesso nos anos 80) está procurando um espaço adequado para a publicação da reportagem que possui 61 mil caracteres com espaços e com possibilidade de publicação em espaços diversos (como livro, revista, jornal, web livro etc.).

Abaixo, uma rápida entrevista realizada pelo JL Blog com a autora vencedora do prêmio nacional de Jornalismo Literário:

 

Jornalismo Literário Blog – Quanto tempo você levou entre a pesquisa, apuração, entrevistas e enfim, a concepção do perfil do médico Ronaldo Honorato?

Andréa Ascenção – Como eu fiz durante o meu tempo livre, levei cerca de dois meses.

JL Blog – Quais técnicas você utilizou para retratar o dia-a-dia tão sofrido de pessoas que esperam doações de órgãos e de um médico que precisa lidar com esse contexto?

Andréa – Utilizei os recursos do Jornalismo Literário. Em linhas gerais significa a construção de uma narrativa que compreende o máximo possível da realidade do perfilado e dos personagens que interagem na sua vida. Para isso, acompanhei Dr. Ronaldo durante alguns dias no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, o lugar onde ele passa a maior parte de sua vida atualmente. Lá pude presenciar “cenas” da complexa profissão que ele escolheu e que o absorve imensamente. Isso, chama-se imersão, um dos pilares do Jornalismo Literário que permitiu a construção de uma narrativa humanizada, ou seja, que mostra os contrastes de uma pessoa, suas certezas, medos, conquistas, fracassos, evolução, enfim, toda a luz e a escuridão que podem habitar o ser humano. A precisão e exatidão, também estão presentes, sobretudo nas partes mais objetivas, em que aparecem os números e fatos concretos que trazem credibilidade ao texto.

Nas passagens mais subjetivas, usei a técnica do simbolismo, que junto à criatividade e a voz autoral, creio terem dado um toque de estilo próprio ao perfil, além de recursos gráficos, como o uso de itálico para marcar monólogos interiores. Durante a primeira entrevista pedi para que Dr. Ronaldo escolhesse três fotos ou objetos que representassem um momento decisivo ou muito importante em sua vida e os trouxesse para a próxima entrevista. Como ele preferiu ser entrevistado apenas no ambiente de trabalho essas escolhas foram muito importantes para revelar aspectos fundamentais, que provavelmente não surgiriam sem esse estímulo.

“Utilizei os recursos do Jornalismo Literário. Em linhas gerais significa a construção de uma narrativa que compreende o máximo possível da realidade do perfilado e dos personagens que interagem na sua vida”.

 

Outra questão presente o tempo todo é a responsabilidade. Talvez o exemplo mais emblemático disso possa ser percebido se levar em conta que a repercussão do trabalho do cirurgião na mídia reflete diretamente no aumento ou diminuição da doação de órgãos. As pessoas assistem a programas na televisão ou leem matérias nas revistas, internet ou qualquer outro meio a respeito, depois percebem que têm em suas mãos a decisão de oferecer ou negar a “matéria prima” que pode salvar vidas e decidem doar ou não os seus órgãos ou de seus familiares. Isso depende muito da informação que chega até elas e de como chega.

JL Blog – Você se inspirou em algum perfil já publicado para realizar a reportagem?

Andréa – Sim. Na época em que escrevi o perfil estava lendo Fama e Anonimato, de Gay Talese, um de meus autores preferidos. Outro perfil que serviu de grande inspiração estrutural e até para a elaboração da pauta foi o do roteirista Fernando Bonassi, escrito pelo Sergio Vilas-Boas e publicado na Revista Ocas.

JL Blog – Você é recém formada no curso de pós-graduação em Jornalismo Literário, único no País. Quais lições aprendidas durante o curso você utilizou no perfil?

Andréa – Foram muitas, mas a que mais me surpreendeu foi quando percebi que havia captado o potencial psicológico do perfilado em diferentes momentos, traçando assim parte da jornada do herói, mostrando os arquétipos em que Dr. Ronaldo se encaixava. O herói, o amante, a persona e o ego, o equilíbrio do self, a sincronicidade, etc). Sem dúvida alguma, o módulo de Psicologia Humanística para Escritores, ministrado por Edvaldo Pereira Lima, da pós me fez compreender até as coisas que havia buscado, captado e escrito mesmo que inconscientemente ou como costumam chamar, o tal faro de jornalista.

JL Blog – Depois de toda a produção da reportagem e com a bagagem que você possuía você estava confiante que iria vencer o concurso?

Andréa – Sabia que ao abordar transplantes de coração tinha um tema que costuma chamar a atenção das pessoas, costumam ficar curiosas e simbolicamente é algo muito forte, o que poderia ser uma vantagem. Mas o Prêmio era nacional, portanto, pensei que apesar de muito concorrido eu não tinha nada a perder.

O que eu me pergunto é: quando os diretores de editoras, jornais, revistas, que têm enfrentado uma crise, vão perceber isso? Vão perceber que o jornalismo literário tem todos os componentes para fazer as vendas e audiência crescerem; para estimular a visão crítica do leitor, e talvez torná-lo mais consciente e responsável; e, quem sabe, até para remunerar dignamente os repórteres?

JL Blog – O perfil já tem um futuro definido? Irá virar livro?

Andréa – Tenho duas possibilidades em vista. Mas não descarto um livro. Vamos ver…

JL Blog – Como você vê o cenário (mercado, leitores, oportunidades) para jornalistas literários no Brasil?

Andréa – Eu acho o jornalismo brasileiro sofrível, porque apenas alguns poucos jornalistas trabalham no sentido contrário da maioria e fazem o que alguns intitulam de jornalismo literário e outros apenas chamam de jornalismo bem feito. O fato é que as redações estão cada vez menores e, inevitavelmente, a qualidade geral continua caindo. Para fazer jornalismo literário é preciso cavar espaços com as unhas.

Até a publicidade e os profissionais de marketing em grande parte já perceberam que histórias reais e humanizadas funcionam muito bem para vender seus produtos. Grandes empresários utilizam técnicas semelhantes em seus discursos comoventes (storytelling) com o propósito final de lucrar mais.
O que eu me pergunto é: quando os diretores de editoras, jornais, revistas, que têm enfrentado uma crise, vão perceber isso? Vão perceber que o jornalismo literário tem todos os componentes para fazer as vendas e audiência crescerem; para estimular a visão crítica do leitor, e talvez torná-lo mais consciente e responsável; e, quem sabe, até para remunerar dignamente os repórteres?

JL Blog – Há alguma coisa que não perguntei e que você gostaria que fosse perguntado?

Andréa – Acho importante dizer que raramente prêmios literários abrem uma categoria para jornalismo literário. Então, agradeço à Concultura pela oportunidade, ao Jhonatan pelo espaço aberto no Blog e gostaria de deixar meus contatos: andrea.ascencao@gmail.com e br.linkedin.com/in/andreaascencao/

Leia com exclusividade um trecho do perfil “O Homem da Segunda Chance”, de Andrea Ascenção:

 

Perfil

O homem da segunda chance

Por Andréa Ascenção

 

 

Puxa! Neste dia de chuva, um motoboy bem que podia bater a cabeça, né, Senhor? Que ele não sofra muito. Que o coração dele venha para mim. Mas eu não desejo o mal para ninguém, Senhor. Por que eu estou pensando isso? Afasta de mim esses pensamentos, Senhor. Será que eu estou pecando? Eu estou me afastando de Deus? Não quero que ninguém morra, mas eu estou aqui há quatro meses!

 

William está deitado de barriga para cima no leito de uma Unidade de Terapia Intensiva no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Ele aguarda um coração compatível para ser transplantado. O seu depende de um balão intra-aórtico, um dispositivo que funciona como uma bomba propulsora, ajudando o sangue a chegar até as artérias do coração. Depois de um mês na mesma posição, William fica temporariamente sem o dispositivo e pode sentar-se em um vaso sanitário. Doutor Ronaldo acompanha o caso e sabe que esse momento é um dos mais felizes desse tempo áspero; em outro, William decide oficializar a união com a companheira que vive junto há 17 anos. Ele permanece deitado, enquanto a noiva, em pé, segura a sua mão. Funcionários do hospital enfeitam o quarto com corações de papel e presenteiam o casal com uma geladeira. Nos dias seguintes não resta mais nada a fazer, se não esperar. Em média, um paciente em prioridade na fila de transplantes, como é o caso de William, espera entre dois e quatro meses até aparecer um coração compatível. Esse tempo pode se prolongar por um ano e dois meses, como no caso mais longo que Dr. Ronaldo assistiu. O mecânico que se casou na UTI, como ficou conhecido William, aguarda por um coração que pertença ao grupo sanguíneo tipo B. Isso significa que ele faz parte de um dos grupos menos prevalentes. Na população brasileira são 11%. O grupo mais prevalente é o O, com 44%.

Na manhã da última sexta-feira de junho de 2013, enquanto uma jovem limpa as orelhas de Wiliam, Dr. Ronaldo entra na sala, cumprimenta-o, recebe de volta um curto aceno com a cabeça e um sorriso. Eles sabem que o coração de William pode parar a qualquer momento.
“Pensa bem, você só vai viver se alguém morrer. Você acha honestamente, que no fundo da alma dele ele não está rezando para isso?”, reflete Dr. Ronaldo Honorato Barros dos Santos, o cirurgião cardiovascular que faz a captação de corações para transplantes no Incor.

– Doutor, vai aparecer um doador!

Nas entrelinhas da esperança dos pacientes e familiares, o médico lê: Doutor, alguém vai morrer. Isso significa que a especialidade de Dr. Ronaldo envolve situações extremas todos os dias. Mas depender de um potencial doador de órgãos não é a única razão disso.

Houve uma época em que as coisas não faziam sentido para Peter, o filho de Dr. Ronaldo, e um dia ele pergunta:

– Só tem você no hospital? Quantos médicos têm no hospital?

Sem perceber aonde o menino de oito anos quer chegar, Dr. Ronaldo procura saber porque Peter está lhe perguntando isso.

– Por que toda vez você é chamado? Por que toda vez você tem que ir?

Hoje, aos 22 anos, Peter cursa engenharia petroquímica na Escola Politécnica e entende o que Dr. Ronaldo explicara desde cedo. “Chega um ponto na vida, em qualquer profissão, que você é o patrão e trabalha mais que o funcionário. É uma visão socialista mega ultrapassada o funcionário achar que o patrão não trabalha. Às vezes ele trabalha mais do que o próprio funcionário, porque o funcionário tem hora para entrar e para sair. O patrão nunca dorme.”
Dr. Ronaldo costuma ter folga mais ou menos metade de um dia, uma vez por semana. Com o tempo ele passou a ser uma figura cada vez mais ausente do convívio familiar e da roda de amigos. Nas festas as pessoas costumam se aproximar para conversar sobre medicina. Mas muitas acabam forçando uma espécie de consulta.

– Que bom que você veio…
– Eu primeiro!
– Depois eu, hein?

“Eu não vou fazer plantão de dúvida e nem consultório em festa”. Quando Dr. Ronaldo visita sua mãe passa pelo mesmo tipo de problema com os vizinhos. A mãe se preocupa com o que os outros vão pensar. Dr. Ronaldo sabe. “’Pô, o cara é grosso, não custava nada ele falar pra mim, né? Não custava nada ele olhar a receita’. Custa! Custa seis anos de formação na escola médica, custa a especialização, e se é uma coisa que não é da minha área? Custa a vergonha, né? ‘Pô, que médico que você é que não consegue ver uma receita?’ Eu já ouvi essa, inclusive”.

Peter é filho adotivo do primeiro casamento de Dr. Ronaldo. Ele sonha em ter outro e está pronto para levar sua atual namorada à condição de amante. Condição essa que ele faz questão de deixar às claras. “Ela já sabe que eu tenho uma amante. É ruim começar um relacionamento assim, sabendo que você já divide a pessoa com outra. E eu sou casado com a medicina”. São 25 anos de companheirismo. “Quem me deu o que eu tenho, me tornou o que eu sou é a medicina. Ela não vai sair de mim nunca e eu não vou me separar dela jamais. É indivisível.”

O compromisso com a profissão pode se embaralhar na fala. Às vezes a medicina é a esposa, ocasionalmente ela ganha o título de amante. O fato é que ela vem sempre em primeiro lugar. “Mas o custo pessoal é muito grande. Esta semana eu dormi duas noites em casa. Então, é punk. Viver comigo não é fácil, não.”

Em dias normais, as primeiras horas da jornada de Dr. Ronaldo podem começar com uma reunião administrativa no Incor e seguir com uma série de visitas aos pacientes. Isso se ninguém o interpelar no meio do caminho.

(continua)

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2 pensamentos sobre “Perfil sobre médico ganha Prêmio Clóvis Barbosa de Jornalismo Literário

  1. Incrível Andréa parabéns pela iniciativa. Uma matéria dessas publicada em um grande veículo de comunicação mostraria a real angustia das pessoas na fila de espera por um coração novo. Tanta gente que morre todos os dias, e seus órgãos voltam ao pó. Porque não deixar uma pequena parte sua com os vivos?
    E tem certas pessoas que precisam frear sua inconveniência e parar de amolar os pobres médicos, já basta no consultório.

  2. Pingback: Leia na íntrega a reportagem vencedora do Prêmio Nacional Clóvis Barbosa de Jornalismo Literário | Jornalismo Literário

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