Fim do jogo para grandes reportagens?

*Por Carlos Marciano – mestrando no POSJOR da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador no grupo objETHOS.

Ah, o New Journalism… Nascido na década de 1960, imortalizado por expoentes como Gay Talese e Truman Capote, admirado por acadêmicos e jornalistas do mercado, considerado morto e sepultado por estes mesmos profissionais que outrora se fascinaram pelas grandes estórias e hoje cada vez mais insistem em mercadejar as notícias. Perdoem-me a cacofonia, assim como perdoo e cedo à outra face aos que não mais acreditam em grandes reportagens no jornalismo.

Tudo isto me veio à mente no momento em que minha tristeza manifestou-se quando vi a entrevista do meu conterrâneo Fernando Morais; mais um jornalista aparentemente desiludido com a imprensa brasileira e seu menoscabo com grandes matérias. Logo ele, autor de clássicos como A ilha, Chatô, o Rei do Brasil, Olga, O Mago e Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Considerei pertinente refletir sobre o tema, da mesma forma que os soldados refletem sobre a guerra ao ver seu comandante desencantado com as batalhas.

Seria de fato uma utopia pensar em grandes reportagens diante deste jornalismo cada vez mais mercadológico? Talvez, mas não acredito que esta fase esteja sucumbida para sempre, mesmo diante de um cenário jornalístico cada vez mais latente em fazer mais com menos.

Não é de hoje que se fala em uma suposta crise jornalística, esta é tateada principalmente após a expansão da internet como uma nova plataforma de transmissão informativa. Dizem que ela será a responsável se de fato um dia o impresso desaparecer; não creio em nenhum dos dois, pelo contrário, em meio aos jornais cada vez mais enxutos de notícia e transbordando publicidade, vejo na internet um campo propício à disseminação das grandes reportagens.

Em círculos

A meu ver, um dos principais problemas está na busca por um único culpado. Se de fato a grande reportagem está sumindo, um conjunto de fatores é o vilão deste jogo. Basicamente uma grande reportagem necessita cumprir três requisitos: um repórter dedicado e criativo, tempo de apuração e um veículo midiático com espaço para publicação. Deixei propositalmente de lado um quarto item, uma pauta atraente, pois ainda acredito que se o primeiro requisito for cumprido, um buraco de rua pode se tornar uma grande história.

Por mais que a pauta seja simples, cabe ao jornalista procurar aquele ponto crucial de amarração, o detalhe apenas aparente a olhos curiosos e bem treinados. A sorte está lançada, mas aqui não é a roleta ou o sacudir de dados que garantirá o prêmio, e sim a astúcia, o faro jornalístico para enxergar a reportagem onde ninguém mais vê. Em meio à correria cotidiana e demanda excessiva de pautas a se cumprir parece difícil pensar desta forma, porém não é impossível, principalmente em eventos extraordinários e pautas saturando-se. Um exemplo é a reportagem de Sérgio Dávila, para a Folha de S.Paulo, durante a cobertura do atentado de 11 de setembro.

Quase um mês depois do ocorrido e inúmeras matérias relatando terroristas, governo americano, vítimas e sequestro dos aviões, o olhar do repórter fez a diferença para encontrar uma nova pauta em meio aos escombros do World Trade Center. A matéria “Falta de sobreviventes ‘estressa’ cães“ voltou o olhar dos leitores para a “divisão K-9”, ou seja, retratou o dia a dia dos cães farejadores e suas dificuldades no árduo trabalho de procurar corpos e sobreviventes. Isto ilustra o fato de que, dos três requisitos citados anteriormente, talvez o primeiro seja o mais fácil de ser alcançado por depender exclusivamente do repórter.

Infelizmente, em dias atuais, tempo, espaço e consequentemente a criatividade do repórter ficam suprimidos pelo fazer mais com menos do mercado jornalístico. Seria ótimo se este excesso se referisse a mais qualidade, texto, tempo de apuração, porém é o oposto que se propaga, na ilusão de que menos aprofundamento e mais textos generalizantes, espalhados por editorias desordenadas, são o acompanhamento exato para o prato principal publicitário.

Tentar mudar este quadro, que diretamente se associa com mais peso ao impresso, é praticamente caminhar em círculos. Considerar que estes fatores são os meteoros destruidores da grande reportagem também o é.

Pode ser até plausível que o impresso não mais necessite de grandes reportagens para manter-se daqui a um tempo, porém outras mídias como programas televisivos e até mesmo canais de internet não desistirão tão cedo dessa riquíssima forma de jornalismo.

Linha de chegada

Crer que a grande reportagem caminha para o abismo é tão assustador quanto ouvir pessoas dizendo em redes sociais que na falta de jornalismo bom e honesto a sociedade já está se virando muito bem sem ele: os jornalistas é que não aceitam sua inutilidade social.

Desconheço esta sociedade e dentro da minha ignorância prefiro crer que ainda há espaço para o bom jornalismo, de textos grandes ou pequenos,

Fernando Morais, embora descrente da continuidade, acredita que as pessoas querem saber de grandes reportagens, os jornais é que não investem neste modelo. Walter Lippmann, em A natureza da notícia, afirma que “um bom jornalista irá encontrar a notícia com mais frequência do que um picareta. Há lances de sorte, mas o número de homens que os consegue é pequeno”.

Assim, enquanto o primeiro requisito se mantiver aceso na cabeça dos jornalistas, enquanto esta sorte for almejada e mantido o desejo das pessoas pela linha de chegada, ainda há um resquício de esperança. Pode faltar tempo de apuração, mas não faltará espaço de publicação. Uma matemática simples onde, se a maioria ganha, dois requisitos alcançados permitem que o outro se forme com qualidade, ainda que não tão rápido como desejamos.

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Reproduzido originalmente do objETHOS com título e intertítulos do Observatório da Imprensa.

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