Jornalismo no cinema: resenha do filme “Repórteres de Guerra” (The Bang Bang Club, 2010)

*Por Isabel Silveira – acadêmica de Jornalismo na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e bolsista do Programa Novos Talentos da Ciência no objETHOS.

 

Representando a realidade sul-africana recente, “Repórteres de Guerra” relata a história verídica do “clube do Bang Bang”, um grupo de fotógrafos formado por Joao Silva, Kevin Carter, Greg Marinovich e Ken Osterbroek. Suas fotos, retratos da guerra civil entre Inkathas, da etnia zulu (os quais eram apoiados pelo governo segregacionista que até então estava no poder), e os partidários do Congresso Nacional Africano (CNA), partido de Nelson Mandela, estampavam as páginas no jornal The Star. A história do longa se passa no início dos anos 90, momento em que a África do Sul estava desarticulando o regime Apartheid; e em 1994, portanto, Mandela seria eleito presidente, depois das primeiras eleições multirraciais do país.

“Repórteres de Guerra relata a história verídica do “clube do Bang Bang”, um grupo de fotógrafos formado por Joao Silva, Kevin Carter, Greg Marinovich e Ken Osterbroek”

Não obstante, um dos itens mais marcantes do filme não consiste na pobreza, mas sim, na violência que assolava o país naquela época. E, acima dela, o viés dramático que a prática do Jornalismo pode tomar em situações dessa magnitude.

É a ética jornalística que desencadeia tal elemento dramático. Até onde a atuação de um jornalista (ou, neste caso, fotojornalista) é mais prioritária do que, por exemplo, a salvação de uma vida? O auge da discussão consiste na fotografia tirada por Kevin Carter, na qual um abutre cercava uma menina subnutrida, esperando sua morte – o que lhe valeu o Prêmio Pulitzer em 1994. Carter recebeu duras críticas. Um dilema se impõe: era seu dever como jornalista ajudar a menina? Kevin, em uma coletiva à imprensa, defende que sua fotografia foi mais além do que um simples auxílio físico à pequena garota. No entanto, um jornalista é, acima de tudo, um ser humano. E como tal, também pertence a este mundo e compartilha de suas dores, suas problemáticas. Seu dever ultrapassa a função jornalística.

Kevin, porém, não está sozinho neste dilema. Em determinado momento do filme, Greg Marinovich porta-se de maneira fria enquanto fotografa um menino que morrera, enquanto seu pai está aos prantos, desolado. Tal comportamento acarreta no fim de seu relacionamento com Robin Comley – editora de fotografia do jornal -, que fica incrédula com atitude de Greg.

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“Fotografia tirada por Kevin Carter, na qual um abutre cercava uma menina subnutrida, esperando sua morte – lhe valeu o Prêmio Pulitzer em 1994”

A problemática racial também aparece no exercício da profissão: considerava-se questão de sorte ter nascido branco, em uma época e lugar onde ser negro acarretava em perseguição por qualquer um dos lados inimigos. É também elemento de revolta, uma vez que os brancos conseguem obter muito dinheiro com reprodução da morte de milhares de negros.

Em 2000, João Silva e Greg Marinovich publicaram o livro “The Bang Bang Club”, base para o filme de Steven Silver. “Repórteres de Guerra” expõe mais do que a dureza da realidade de uma guerra civil: destaca a ousadia e a determinação, os impasses e questionamentos éticos da atuação jornalística.

Veja o trailer:

 

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Resenha reproduzida do site objETHOS. Título, fotos e trailer introduzido pelo JL Blog.

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