Vidas congeladas: as fotos e os mini-perfis de Tiago Zenero

Tiago Zenero (22) é um fotojornalista. Há quase dois anos começou a contar histórias de pessoas anônimas pelo Brasil e mundo por meio das lentes de sua câmera fotográfica e de suas palavras. Zenero é inspirado pela narrativa humanizada do Jornalismo Literário e por grandes nomes da área como Truman Capote (o livro “A Sangue Frio” foi seu primeiro contato com o JL) e principalmente Eliane Brum, “já li todos os seus livros. Acho que ela é a grande inspiração para os meus textos”, afirma.

As referências e a prática de criar mini-perfis com texto e fotos fez o fotojornalista criar a uma página na rede social Facebook com o título objetivo de “Tiago Zenero – Perfis”. A produção dos perfis surgiu de uma dificuldade: a de encontrar oportunidades no campo do fotojornalismo no Brasil. “Eu trabalhei nos Estados Unidos como fotojornalista em um jornal chamado The Daily Nebraskan. Lá eu aprendi a tirar fotos e me apaixonei por isso. Quando eu voltei ao Brasil, em dezembro de 2013, eu queria continuar com essa profissão, mas moro no interior do Estado de São Paulo e é muito difícil que os jornais abram as portas para novos fotojornalistas. Então por hobby eu continuei a tirar fotos”. Para não deixar as fotos e mini-perfis “na gaveta” Zenero decidiu publicá-los.

Zenero: “Sempre eu tento ressaltar um lado heroico que todas as pessoas têm, para tentar fazer com que os leitores dos mini-perfis possam refletir um pouco seus valores, pensar em como estão lidando com suas dificuldades e que, principalmente, passem a ver esse lado heroico nas pessoas mais marginalizadas pela sociedade”. Foto: Arquivo Pessoal

“Um dia eu estava no centro de Bauru e conheci o Jorge, um artesão que estava fazendo um gafanhoto com folhas de Palmeira. A gente conversou um pouco e eu pedi pra tirar uma foto dele. Quando eu postei como um mini-perfil, a foto foi compartilhada quase mil  vezes e teve mais de 1600 curtidas”, conta. A percepção de que havia uma demanda por histórias da realidade o fez continuar.

Os caminhos da apuração

   “É muito difícil eu me aproximar, eu nunca sei direito como abordar uma pessoa com uma câmera com uma lente gigante e pedir pra registrar sua vida, então eu tento sempre chegar sem a câmera e começar uma conversa, para depois me apresentar. Só que aí vem outra dificuldade, porque eu acabo me envolvendo muito com elas. Tem gente que me conta temas muito delicados, como furtos que já cometeram ou uso de drogas ilícitas. São coisas que eu tenho que tomar muito cuidado na hora de escrever para não acabar levando a pessoa a ser discriminada por alguma besteira que ela já fez na vida”, declara.
  Zenero comenta ainda que, às vezes, pequenos gestos ou pequenos perfis, nesse caso, mudam vidas e transformam visões de mundo. “É gratificante eu andar na Favela das Malvinas, em Guarulhos, por exemplo, com a câmera na mão sem medo de ser assaltado e cumprimentando todo mundo. Ou então quando eu estou andando no centro de Bauru, no interior de São Paulo, e um morador de rua vem conversar comigo para me contar que desde que a gente conversou a ultima vez ele não usou mais drogas. Eu acabo fazendo verdadeiros amigos”, finaliza.
Atualmente Tiago Zenero faz estágio de comunicação na Universidade de Talca, no Chile, e é redator do site da instituição no espeço dedicado aos alunos de intercâmbio.
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Veja três perfis selecionados produzidos por Tiago Zenero:
C.S.M
“C.S.M. Pode me chamar assim. Não vale a pena falar meu nome. Ou melhor, me chama de Alemão, assim que o pessoal me chama pelas ruas”. Alemão é de Maringá, no Paraná, e já está em Bauru há tanto tempo que ele nem se lembra mais quando chegou. “Lá eu deixei 3 filhos. Tenho a mais velha de 27, outro de 21, e o menor de 16”. Desde que chegou em Bauru, ele mora nas ruas da cidade, pedindo dinheiro para se alimentar e também para tomar uma cachaça. “Eu sou indigente, sempre morei aqui na praça, pela rua mesmo. Quando consigo um dinheiro eu como, às vezes tomo uma caninha, porque ninguém é de ferro, não é mesmo?” No centro da cidade, ele é quem cuida dos outros moradores de rua, mas seu sonho é voltar para o Paraná, pois ele se arrepende de ter abandonado a família e de ter vindo para cá sozinho. “Hoje é dia dos pais, né! Eu fui um péssimo pai, não que eu não ame meus filhos, mas não tive condições de criar eles direito. Mas, tudo isso aqui, todos eles que moram aqui na praça, esses sim não podem reclamar de mim, desses eu cuido. Sou pai de todos eles!”
"C.S.M" fotografado por Tiago Zenero

“C.S.M” fotografado por Tiago Zenero

Dona Maria Helena

“Oi Dona Maria Helena, como a senhora está?”
“Ah não estou nada bem, meu filho, estou péssima para falar a verdade”.
“Mas por quê? O que aconteceu?”
“É o meu neto, sabe. Ele é um bom menino, mas aprontou, dessa vez ele fez besteira mesmo”.
“O que ele fez?”
“Vou te contar. Ele comprou um carro usado, e já fazia uns 15 dias que ele estava com o carro, mas aí a polícia achou um monte de drogas no carro. Ele disse que não era dele, mas não sei se dá para acreditar, eu sou vó, né! Mas então, ele foi preso, vai ficar 8 meses na cadeia… Acabou o Natal, acabou o Ano Novo e até o aniversário dele que é em fevereiro ele vai passar por lá. Eu estou arrasada. Se eu tivesse dinheiro, eu até pagava pra soltar ele, mas eu sou aposentada e ainda não recebi o décimo terceiro. O pior de tudo você não sabe… Ontem foi dia de visita, eu fui la na cadeia visitar ele. Menino, é um lugar horrível. Eu entrei e tinha aquele corredor enorme, todo escuro, com as paredes estragadas, aí no final revistam a gente, mas não é revista íntima não, agora pelo menos eles respeitam as visitas. Quando finalmente eu passei por tudo isso, eu comecei a chorar, não queria ver o meu menino, o meu neto, lá naquele lugar. Aí eu saí e fui esperar minha filha no carro. Ele não sabe que eu fui, ainda bem, porque ele disse pra mãe dele que não quer que eu o veja lá na cadeia. Dói tanto o coração… Posso te pedir uma coisa?”
“Pode, claro!”
“Me dá um abraço! Agora outra coisa, vou até soltar meu cabelo pra você tirar a foto. Pede pra quem ver essa foto vir aqui me ajudar? Não ajuda com dinheiro não, porque isso eu não aceito, mas vir aqui conversar comigo, me dar um abraço… Eu me sinto tão sozinha”.

“Ah não estou nada bem, meu filho, estou péssima para falar a verdade”. Foto: Tiago Zenero

Bianca
“Me ajuda aqui a abrir o pão”, Bianca ordena às amigas. “Mas não tem faca”, uma delas reclama. “Não tem problema, abre com a mão mesmo, olha como faz”, ela responde rapidamente arrancando o pão das mãos da amiga para mostrar o jeito correto de cortá-lo sem a ajuda de uma faca. “Você tem que arrancar o miolo e aí colocar uma fatia de queijo dobrada no meio, depois é só fechar e levar para os voluntários” – ela continuava com a explicação – “mais rápido, eles estão com fome!” Bianca tem apenas 9 anos, mas já sonha em ser cozinheira, ou melhor, culinária. “Cozinheira não é chique, culinária é quem prepara comidas chiques para festas e eventos”, ela me explica a diferença. Bianca mora na comunidade Malvinas, em Guarulhos, e antes queria ser médica, mas ela mudou de ideia quando começou a ajudar sua mãe na cozinha. “Eu já sei fazer arroz, ovo e sanduíche. Também sei fazer bolo, mas sem cobertura, a cobertura é minha mãe que faz”. Porém, isso é só o início, Bianca pretende aprender outros pratos para que “quando eu virar uma culinária, eu possa alimentar todo mundo com comida gostosa”.
bianca - foto tiago zenero

Bianca pretende aprender outros pratos para que “quando eu virar uma culinária, eu possa alimentar todo mundo com comida gostosa”. Foto: Tiago Zenero.

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O título dos mini-perfis foram inseridos pelo blog JL.
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