Enfraquecimento do jornalismo no Brasil e a formação de novos profissionais

Por Lívia de Souza Vieira*.

O ano de 2014 não trouxe boas notícias para os jornalistas. Em março, o jornal O Globo demitiu 5 profissionais, entre eles editores experientes, para contratar outros 22, entre repórteres e técnicos para a área digital. Em agosto, foram 100 demissões no portal Terra, o que representou a quase extinção da redação em Porto Alegre. No mesmo mês, o Grupo RBS protagonizou o maior processo de demissões em massa no ano (até agora): 130 trabalhadores em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Em outubro, foi a vez da ESPN demitir 10 jornalistas. Em novembro, o esportivo Lance! demitiu 30 jornalistas e a redação do Rio caiu a quase metade. Neste mesmo mês, houve 5 demissões no Grupo Paranaense de Comunicação. E na última semana foi a vez do jornal Folha de S. Paulo, que demitiu 13 jornalistas, entre eles profissionais com décadas de casa, como Eliane Cantanhede e Fernando Rodrigues.

Os anos anteriores também não foram diferentes. Em artigo no Observatório da Imprensa, a jornalista Cristina Moreno de Castro elencou as demissões do ano de 2013, no que chamou de “clima de terror que ronda as redações”. Ela ainda citou levantamento do site Comunique-se, que contabilizou 1.200 demissões de jornalistas nas redações brasileiras em 2012. Para conhecer mais sobre esse contexto, vale a pena ler a reportagem ‘A revoada dos passaralhos’, da Agência Pública, que mostra como essas demissões tornam os jornalistas mais inseguros, vulneráveis e explorados.

Formação em expansão, mercado em encolhimento

Em que pesem as inúmeras análises que podem ser feitas a partir desses números, este artigo se volta para uma delas: a formação de novos jornalistas diante de um cenário de visível enxugamento. De acordo com dados do Enade 2012, havia 13.243 estudantes concluindo o curso de Jornalismo naquele ano em 272 escolas do país. Frente ao exposto até aqui, em suma, essa conta não fecha. Ou pelo menos não tão facilmente.

Trata-se, portanto, de um enorme desafio para o ensino dessa profissão. E é aí, a meu ver, que reside uma questão importante: precisamos ensinar jornalismo para além do mercado. Até porque, em última instância, o que é esse tal mercado senão algo efêmero, volátil e por vezes cruel?

Esse raciocínio, que parece simples, é também uma mudança de cultura. Estamos acostumados a ensinar nossos alunos a serem empregados e a estimulá-los a sonhar com as grandes redações. Quase nada falamos sobre ousadia, porque nós mesmos fomos formados na lógica do jornalismo industrial, concentrado nas mãos de poucas e grandes empresas de comunicação.

Perfil de um jornalista que chama à ação

Só agora, a partir da implementação das novas diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo, é que se fala em disciplinas como Empreendedorismo de forma mais assertiva. Aliás, é nas diretrizes que encontramos pistas norteadoras para o ensino nesses tempos tão incertos. No artigo 5º, enfatiza-se que o perfil do jornalista deve ser o de ‘produtor intelectual e agente da cidadania’. São expressões fortes, que chamam para a ação. E o mais fantástico é que já há exemplos de jornalistas que estão assumindo para si essas responsabilidades. Formados por produtores intelectuais e agentes da cidadania, temos projetos como Agência Pública, Fluxo e Ponte, só para ficar entre os que têm mais destaque. Em nível micro, posso destacar dois projetos de alunos formados pelo Bom Jesus IELUSC, instituição de Joinville (SC): o site MMA Sul, que se tornou referência de cobertura jornalística em seu segmento; e o site À Margem, que quer ultrapassar as margens instituídas e voltar o olhar para os que estão à margem.

Como esses exemplos que citei, há certamente muitos outros nascendo não só no meio digital, que podem dar certo ou não. Importa enxergar esse cenário de oportunidades. Em nossas aulas, ao invés de gastarmos tanta saliva explicando os porquês da crise no mercado de jornalismo, deveríamos ousar mais como docentes. Este é um tempo promissor e temos que mostrá-lo a nossos alunos. Afinal, formar produtores intelectuais e agentes da cidadania significa sair da caixa e tentar mudar o mundo. E cá entre nós, não é com isso que sonhamos quando éramos estudantes? Eles hoje têm os meios para isso. A nós cabe mostrar-lhes os valores técnicos, éticos e os fundamentos essenciais desse jornalismo que sempre quis ser livre.

(Artigo publicado originalmente no site objETHOS com o título de “O ensino do jornalismo para além do mercado”).

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*Lívia de Souza Vieira é doutoranda no centro de pós-graduação em jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e pesquisadora do objETHOS.

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