“O jornalismo sempre esteve ligado, se não à literatura, aos literatos”

*Por Matinas Suzuki Jr.

O jornalismo sempre esteve ligado, se não à literatura, aos literatos. Escritores como Daniel Defoe, Charles Dickens e Jack London estão entre os muitos que são citados tanto no campo da ficção quanto na história da imprensa. O Brasil, onde o gênero não teve continuidade, produziu um dos maiores clássicos do Jornalismo Literário, as reportagens de Euclides da Cunha sobre Antonio Conselheiro e Canudos, publicadas originalmente nas páginas de O Estado de S. Paulo.

Na tradição americana, esse tipo híbrido de narrativa tem várias denominações: jornalismo literário, literatura de não-ficção, ensaio, jornalismo de autor, novo jornalismo. Como gênero ambivalente, sofre a crítica dos que acham que ele não é nem uma coisa nem outra. Não seria jornalismo e, se fosse literatura, seria uma literatura de segunda classe.

A preocupação com o tema é antiga. O termo “novo jornalismo”, por exemplo, foi usado em 1887 por Mat Arnold, para descrever o estilo vivo das reportagens que W.T. Stead escrevia para a Pall Mall Gazette. São também citados como referências históricas do estilo híbrido os conceitos de Lincoln Steffens (ele dizia querer fazer um novo tipo de jornalismo diário “pessoal, literário e imediato”) e de Hutchins Hapgood para criar um Jornalismo Literário no Comercial Adviser, e as reportagens experimentais que o veículo publicou no início do século 20.

A discussão acadêmica não impediu que esse terceiro gênero se estabelecesse como uma das forças narrativas americanas. Os especialistas exigem alguns requisitos para que uma obra possa ser classificada como pertencente ao Jornalismo Literário. Ela deve ser publicada originalmente em um jornal ou revista (a partir dos anos 80, com a diminuição crescente do espaço nos jornais e revistas, alguns autores passaram a publicar reportagens diretamente na forma de livro; no Brasil, essa foi praticamente a única maneira de o Jornalismo Literário sobreviver). Ela precisa estar ancorada em fatos. Sua matéria-prima é o trabalho de grande apuração: muitas entrevistas, muito bate-pé de repórter, pesquisa em arquivos, exaustiva investigação de fatos, levantamento de dados.

Foto: Paulo Troya.

Matinas Suzuki Jr. pelas lentes de Paulo Troya

Essa técnica é chamada de “reportagem de imersão”. Os representantes do novo jornalismo fizeram dela um de seus dogmas, a tal ponto que George Plimpton treinou em times profissionais de beisebol e de futebol americano e lutou com um ex-campeão peso-pesado para se sentir qualificado a escrever sobre esportes. Mark Kramer, no livro Literary Journalism, diz que o trabalho de uma matéria toma:

“…semanas ou meses, incluindo o tempo gasto lendo temas relacionados com economia, psicologia, política, história e ciência. Jornalistas literários fazem anotações elaboradas retendo as palavras das citações, a seqüência dos eventos, detalhes que mostram a personalidade, atmosfera e o conteúdo sensorial e emocional. Nós temos mais tempo do que é permitido para os jornalistas que escrevem diariamente, temos mais tempo para uma segunda avaliação e para repensar as primeiras reações”.

Alguns autores colocam ainda a necessidade de se preservar a ética jornalística e de haver uma preocupação esmerada com a correção factual (rigorosa no caso da The New Yorker, por exemplo, que possui um eficiente departamento de checagem) da publicação, como aparas para o vôo livre do repórter/escritor. Terminada a lição de casa da exaustiva apuração, o jornalista literário expressa a sua voz com mais liberdade do que no âmbito do jornalismo convencional ou, na expressão de Ben Yagoda, faz “os fatos dançarem”.

No momento em que o jornalismo, por força das mudanças acentuadas da vida contemporânea, encontra-se em fase de redefinição, uma volta aos clássicos do jornalismo literário pode ser útil para se desenhar alguns modelos, principalmente para aqueles que acreditam que o futuro dos jornais e das revistas de papel está na diferenciação pela qualidade (não só da informação e da análise, mas também do texto).

Para aqueles que não se interessam pelas questões jornalísticas, o livro Hiroshima dá, com um atraso considerável, o direito de conhecer um dos textos fundamentais sobre os efeitos da bomba atômica.

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Título editado pelo blog JL. Originalmente o texto, de autoria de Matinas Suzuki Jr., foi publicado no clássico livro de John Hersey: Hiroshima (Cia. das Letras) sob o título “Jornalismo com H”, que teve sua maior parte também publicada pelo blog JL em janeiro. Confira aqui.

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