Crítica de cinema: A fogueira das vaidades (1990)

Operadores da Bolsa, delinqüentes juvenis, promotores judeus de olho nas eleições, advogados inescrupulosos e pastores negros manipuladores. O caos nova-iorquino é retratado todos os dias por repórteres como Peter Fallow (Bruce Willis). Ou pelo menos por profissionais menos bêbados e incompetentes que ele. O jornalista está no fundo do poço e passa os dias em casa até se deparar com a história perfeita e virar o jogo.

No outro lado da cidade, Sherman McCoy (Tom Hanks), um grande operador da Bolsa, um “mestre do universo” com tudo a seu favor, está prestes a fechar um negócio de 600 milhões de dólares. Mas a curva errada no meio de uma pulada de cerca com Maria Ruskin (Melanie Griffith) leva o seu Mercedes ao submundo do Bronx. Para quem pretendia ir para Manhattan, certamente foi uma péssima escolha. Fugindo de uma tentativa de roubo, Maria acaba atropelando um dos jovens assaltantes negros, Henry Lamb, que vai para o hospital em coma. Apesar dos desesperados apelos de McCoy, a mulher se nega a ir à polícia.

Fallow tem sua história. O reverendo Bacon (John Hancock), louco por prestígio para sua igreja, circula o “crime racial” até Jed Kramer, assistente promotor de Abe Weiss (F. Murray Abraham), eterno candidato à Prefeitura. O assunto interessa: o ano eleitoral se aproxima e, afinal de contas, as minorias étnicas ainda votam. Trancafiar um rico homem branco agradaria à comunidade do Bronx. O pastor também não se esquece da mídia e leva o caso até o jornalista.

Sem informações concretas sobre o fato, Fallow faz uma apuração mequetrefe e acaba descobrindo que Lamb não cuspiu no seu professor durante o segundo grau. Baseado nisso, escreve uma matéria expondo a tragédia que se acometeu sobre o garoto, um aluno exemplar a caminho da faculdade, e como seus algozes fugiram sem nem ao menos prestar-lhe socorro.

Os homens de Weiss acabam rastreando a placa de Sherman, que é preso e julgado, enquanto sua amante foge para a Europa. Por falta de evidências e para não entrar no jogo do reverendo Bacon, o juiz Leonard White (Morgan Freeman) solta o acusado com uma fiança irrisória. O executivo não põe a culpa na ex-amante. Insatisfeitos com o resultado, tanto o pastor quanto o promotor Weiss partem atrás de evidências que comprovem que McCoy é culpado.

Nesse meio tempo, o improvável acontece: Sherman e Fallow se encontram. Criador e criatura frente a frente. Sem saber da real identidade de seu novo amigo, o executivo acaba revelando que não dirigia o carro no momento do acidente. Com a vida totalmente destruída pela repercussão da matéria, volta para o que sobrou da sua casa depois que sua mulher foi embora.

O jornalista apura esse fato novo, vai conversar num restaurante com o marido idoso de Maria Ruskin. O empresário acaba morrendo, literalmente, de tanto beber e a esposa é obrigada a retornar da Europa para o velório. Fallow a aborda já no aeroporto e, pela reação desconfiada da moça, sente que há algo de errado na história como foi contada até o momento.

Uma nova reportagem dando conta da suspeita socialite sai no jornal. Fuçando o caso ainda mais, o jornalista encontra uma escuta que a polícia plantou no apartamento onde Sherman e Maria se encontravam, para tentar provar um outro crime da mulher. A fita contém uma declaração dela dizendo que dirigia o carro no momento do acidente. Participando ativamente do rumo dos acontecimentos, e já pensando no livro que escreverá contando o caso, Fallow entrega a fita ao advogado de McCoy.

Os promotores e o pastor convencem Ruskin a testemunhar contra Sherman e ela aceita. No tribunal, em meio a louvores, desmaios e mentiras, Mc Coy finalmente se corrompe, apresentando a fita como sendo sua e se livrando definitivamente da prisão, para o ódio da massa negra.

Falllow produziu todo o desenrolar do acontecimento, baseado desde o início em mentiras. Ganhou fama e prestígio com o livro que lançou narrando toda a história e entrou para o rol dos jornalistas antiéticos. A história, baseada no best-seller “A Fogueira das Vaidades” de Tom Wolfe, pináculo do New Journalism, foi filmada por Brian de Palma.

O estilo do diretor está presente em diversos momentos da película, como na acrobática cena inicial de quatro minutos e 50 segundos sem cortes, nas divisões de tela, nas atuações exageradas. O destaque fica para as ótimas atuações de Morgan Freeman e Tom Hanks, que estreava fora da comédia convencional. Bruce Willis e suas limitações funcionam bem para o jornalista, talvez devido ao fato do personagem estar constantemente bêbado.

 

FICHA TÉCNICA

Diretor: Brian De Palma
Argumento: Tom Wolfe
Adaptação: Michael Cristofer
Tempo: 125 min
País: Estados Unidos
Elenco principal: Bruce Willis, Tom Hanks, Melanie Griffith, Morgan Freeman, John Hancock, F. Murray Abraham.

 

(Resenha publicada originalmente no site objETHOS pelo jornalista Roberto Saraiva)

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