Futuro do Jornalismo: crises e oportunidades

O recente artigo de James Harding – traduzido por Celestino Vivian e publicado no Observatório da Imprensa – discute sobre o tão debatido tema do “futuro do jornalismo”. No texto, porém, Harding foge do clichê e apresenta o panorama global do jornalismo com dados e fatos que elucidam a crise e apresentam uma clara chance de renovação do ofício de informar. O blog JL reproduz o texto abaixo e destaca a oportunidade dos jornalistas literários, no Brasil e no mundo, emergirem com novos espaços, iniciativas, criação etc. Conforme o autor (com grifo do blog):

Dissecar o jornalismo pode ser como analisar uma piada, uma espécie de diversão sem foco. Seja qual for a mudança que está por vir, nosso trabalho continua no sentido de descobrir o que realmente está acontecendo e relatar essa transformação. Propusemo-nos a olhar para as notícias de três formas – tecnologia, histórias e pessoas.

Leia o texto na íntegra:

O futuro do jornalismo, na visão da BBC

Jerry Seinfeld, comediante, ator, escritor e produtor norte-americano, disse certa vez: “É incrível como a quantidade de notícias que acontece no mundo todos os dias sempre cabe direitinho no jornal”. Hoje, isso já não acontece.

Há mais informações, mais facilmente disponíveis, de forma mais imediata, em mais formatos, em mais dispositivos e para muitas centenas de milhões de pessoas a mais do que no passado. E costumava-se dizer que a liberdade de imprensa é limitada àqueles que a possuem.

Hoje, qualquer pessoa com uma conexão à internet e uma conta no Twitter pode fazer a notícia. Se você pode escolher, você é o manda-chuva.

Então, como é que a internet mudou a notícia? Infinitamente para melhor. Para quem estiver interessado em relatar o mundo – encontrando histórias, contando histórias, compartilhando histórias – tudo isso tornou-se muito mais possível. Estamos vivendo o momento mais emocionante para o jornalismo desde o advento da televisão.

E a era da internet está apenas começando. Em 2025, a maioria das pessoas no Reino Unido provavelmente irá escolher os seus programas de televisão pela internet. Em 2030, possivelmente, todo mundo agirá assim. A antena de TV terá o destino da máquina de escrever.

Apenas uma década atrás, o número de pessoas superava o número de dispositivos conectados, na proporção aproximada de 10 para um. No ano passado, o número de telefones móveis superou pela primeira vez o número de pessoas. Em 2020, haverá no planeta cerca de 10 dispositivos conectados para cada ser humano. Logicamente, as mudança tecnológicas são desiguais entre as diferentes partes do mundo, entre as diferentes faixas etárias e diferentes comunidades. Mas elas continuarão avançando. E se nada ocorrer de anormal, vão se acelerar.

Então, como é que a internet mudou a notícia? Infinitamente para melhor. Para quem estiver interessado em relatar o mundo – encontrando histórias, contando histórias, compartilhando histórias – tudo isso tornou-se muito mais possível. Estamos vivendo o momento mais emocionante para o jornalismo desde o advento da televisão.

A transformação

As possibilidades emocionantes das mudanças, no entanto, não podem disfarçar o fato de que a mudança é perturbadora – e difícil. Como observou Sir Charles Dunstone, fundador da Carphone Warehouse (rede de lojas européia, lançada em 1989), o novo mundo da mídia pode ser comparado à cidade suíça de Zurique – que está cada vez mais parecida com a cidade indiana de Bombaim.

Neste ambiente movimentado, há menos notícias e muito mais ruído. A internet provocou um rombo no modelo de negócios de muitas das grandes organizações de mídia. E, como resultado, amplos segmentos da vida moderna são cada vez mais esquecidos ou estão submonitorados pela imprensa.

Tomemos como exemplo a mídia local e regional. Na medida em que os anúncios classificados foram migrando para o meio digital, a imprensa regional sofreu e sofre. Do “Rocky Mountain News” (circulava em Denver, Colorado/EUA) ao “Reading Post”, no Reino Unido, muitos jornais locais foram fechados. Em uma década, mais de 5.000 postos de trabalho foram cortados nas redações de toda a imprensa regional e nacional no Reino Unido. E este enxugamento de repórteres não está acontecendo uniformemente. De forma alguma.

De acordo com o estudo de Andy Williams, da Escola de Jornalismo da Universidade de Cardiff (País de Gales, Reino Unido), somente a Media Wales Ltd – de propriedade do grupo Trinity Mirror – sofreu drástica redução de pessoal na redação e produção. Passou de cerca de 700 funcionários em 1999 para 136 em 2011.

Essa tendência não é apenas local, é global. A mídia norte-americana tem números ainda mais expressivos do que o Reino Unido. Por exemplo: a quantidade de correspondentes internacionais que trabalham para jornais dos EUA recuou 24% de 2003 a 2010. E o volume de noticiário internacional nos jornais da noite em 2013 foi menos de a metade do que era no final de 1980. Estudo mais recente do jornalismo internacional na imprensa britânica colheu números similares.

Outros países, como Rússia e Catar, estão investindo em reportagens globais. A Televisão Central da China (CCTV, a maior do país, em operação desde 1958) recebeu uma injeção de cerca de US$ 7 bilhões para expandir as operações globais, aumentando o alcance de sua programação via satélite, atingindo hoje 220 milhões de famílias estrangeiras, contra apenas 84 milhões em 2009.

E quem se importa com essa transformação? As pessoas dizem que o acesso às notícias nunca foi tão bom como é hoje. De acordo com recente pesquisa da BBC, 76% das pessoas concordam que é mais fácil do que nunca saber o que está acontecendo no mundo.

A mudança de geração está na base das novas formas de consumir notícias. Na Suécia, a idade média do público que assiste ao noticiário noturno na SVT – a emissora de serviço público – é de 66 anos. Enquanto isso, uma pesquisa recente descobriu que 26% das crianças de dois anos na Suécia já ficam on-line pelo menos uma vez por dia.

Os contornos dessa revolução já são claros no Reino Unido, onde, no ano passado, o noticiário de TV alcançou, em média, a cada semana, 92% das pessoas com mais de 55 anos – um número estável ao longo da última década. Na faixa entre 16 e 34 anos, esse percentual cai para 52% a cada semana – bem abaixo dos 69% de 2004. A ruptura (ou transformação) que ocorreu com os jornais ao longo dos últimos 10 anos, numa espécie de cobrança de pedágio, vai, de uma forma ou de outra, atingir o noticiário de TV durante a próxima década.

E quem se importa com essa transformação? As pessoas dizem que o acesso às notícias nunca foi tão bom como é hoje. De acordo com recente pesquisa da BBC, 76% das pessoas concordam que é mais fácil do que nunca saber o que está acontecendo no mundo. Mas o meio, como sempre, dá forma à mensagem. Há pouco mais de 50 anos, a TV transformou o modo de transmitir a notícia. Para milhões de pessoas, a TV trouxe vida. Mas os telejornais também trouxeram imagens dramáticas, políticos telegênicos e declarações irritantes.

A internet

A internet também está mudando o noticiário. No Reino Unido, por exemplo, 59% dos usuários de notícias digitais disseram, em recente pesquisa, que olharam (em determinada semana) para as manchetes on-line. Outros 43% disseram ter lido reportagens mais longas no on-online.

Emily Bell, do Tow Center para Jornalismo Digital, (Universidade Colúmbia/EUA) apontou que a internet não é necessariamente um curador neutro do noticiário. No ano passado, uma experiência acadêmica analisou como o Facebook manipulou o feed de notícias de 700 mil usuários durante uma semana para ver como a visualização de diferentes tipos de notícia pode afetar o humor dos usuários. Boas mensagens deixam as pessoas mais propensas a serem felizes.

A internet está ignorando o repórter profissional. Computadores podem fazer muitos dos trabalhos que os jornalistas estão acostumados a fazer, como compilar resultados de futebol, produzir boletins noticiosos sobre viagens e até escrever notas sobre balanços de empresas. Serviços que costumavam ser partes essenciais da notícia estão cada vez mais automatizados e disponíveis on-line de forma separada.

E até os governantes estão descobrindo que podem falar diretamente com o cidadão, sem a necessidade de se preocuparem com perguntas embaraçosas de um repórter. O concorrente do jornalista já não é mais um outro jornalista. Muitas vezes, é o próprio personagem da história. Partidos políticos, celebridades e corporações se comunicam diretamente com o público. Uma era de maior conectividade não conduz, necessariamente, a uma maior responsabilização.

Desigualdade

É uma época de crescente desigualdade no acesso às informações. Milhões de pessoas estão on-line, milhões não estão. O mundo está se dividindo entre aqueles que podem buscar a notícia e aqueles que, em número crescente, mal conseguem se aproximar desse processo. De um lado estão os que pesquisam, os que esperamser encontrados;de outro, osque nãobuscam conhecimento.

O jornalismo – particularmente o jornalismo de serviço público – tem a responsabilidade de apontar soluções. A indústria de notícias pode ajudar a determinar o tipo de sociedade conectada que somos.

Está aumentando, por um lado, a lacuna de informação entre as pessoas mais jovens, as pessoas mais pobres e alguns grupos de minorias étnicas; e, por outro, entre as pessoas idosas, as pessoas mais ricas e alguns grupos de pessoas brancas. Há cada vez mais dados, mais opinião, mais liberdade de expressão, mas é mais difícil saber o que realmente está acontecendo. Mesmo que o internauta diga ser mais fácil obter notícias, as pessoas estão cada vez mais inseguras em relação aos fatos e o que eles significam.

O conhecimento das pessoas sobre os fatos importantes, quando se trata de política pública, é incrivelmente desigual, como mostrado por uma pesquisa realizada em outubro de 2014 pelo instituto britânico Ipsos MORI. Por exemplo, os britânicos acham que 24% da população são imigrantes (quase o dobro do percentual real de 13%) e acreditam que cerca de 24% da população em idade de trabalhar estão desempregados (o número real é de 7%).

Esta é uma época irregular. Vemos, em alguns lugares, decadente entusiasmo para a democracia, polarização de opiniões, desengajamento social e uma crise de cidadania. Esses problemas não são culpa da mídia. Mas o jornalismo – particularmente o jornalismo de serviço público – tem a responsabilidade de apontar soluções. A indústria de notícias pode ajudar a determinar o tipo de sociedade conectada que somos.

O futuro da BBC

No ano passado, a BBC começou a discutir como será seu jornalismo na próxima década. A empresa se propôs a olhar para a indústria de notícias como um todo, e não apenas para a BBC News. Foram colhidos pontos de vista e ideias dentro e fora da organização.

Você pode muitas vezes acabar parecendo um bobo ao tentar prever o futuro. Este exercício, no entanto, não é de prever a próxima década, mas de se preparar para ela. É também um esforço realizado por jornalistas que sabem que, no final, o futuro da notícia é a notícia.

Dissecar o jornalismo pode ser como analisar uma piada, uma espécie de diversão sem foco. Seja qual for a mudança que está por vir, nosso trabalho continua no sentido de descobrir o que realmente está acontecendo e relatar essa transformação. Propusemo-nos a olhar para as notícias de três formas – tecnologia, histórias e pessoas.

O que os novos dispositivos, redes e plataformas nos permitem fazer? Como as organizações de mídia devem relatar fatos e contar histórias e o que, de fato, vai contar como uma história? E onde e como as pessoas vivem no Reino Unido e em todo o mundo? O que vão querer e o que esperam do noticiário?

Na era da internet, a BBC é mais necessária e valiosa do que nunca. A internet não está mantendo todos informados, nem vai. De fato, ela está ampliando problemas de desigualdade na informação, de desinformação, de polarização e desengajamento. Nosso papel, porém, é manter todos informados.

Para fazer isso, a BBC News vai ter que começar a pensar em como vai cumprir a sua missão de informar além da radiodifusão/televisão. Globalmente, precisa explorar ao máximo seu alcance exclusivo no noticiário mundial. A Grã-Bretanha tem um papel único no Serviço Mundial – e a BBC precisa decidir se deve haver uma estratégia de crescimento ou um pé no freio bem gerenciado.

No Reino Unido, a desconcentração e o declínio da imprensa regional está criando uma real necessidade de cobertura de acontecimentos locais. A BBC vai ter de fazer mais para fornecer notícias locais que possam interessar a todas as regiões do Reino Unido.

A BBC sempre inovou na notícia. As oportunidades do novo jornalismo estão à vista – em jornalismo de dados, em serviços personalizados de notíciais, em audiências específicas. É hora de aproveitá-las.

Na emocionante, desigual e agitada era da internet, a necessidade de notícias – precisas e justas, perspicazes e independentes – é maior do que nunca.

Na era da internet, o trabalho da BBC é ser o lugar aonde as pessoas vêm em busca da verdadeira história – oque realmente importa, o que realmente está acontecendo, o que realmente significa. Para fornecer a verdadeira história, temos de ser intransigentes em relação a nossos valores jornalísticos – exatidão, imparcialidade, diversidade de opiniões dando um tratamento justo às pessoas envolvidas nas notícias e no serviço público. Nós temos que ser claros sobre a forma como trabalhamos. Estamos às voltas com qualidade, não com quantidade – abertura, universalidade e independência. Pois, em uma democracia, a notícia é o serviço público essencial. Um governo do povo não pode funcionar sem ele.

Ninguém colocou isso melhor do que Thomas Jefferson. Em 1787, ele escreveu: “Sendo a base de nossos governos a opinião do povo, o primeiro objetivo deve ser o de manter esse direito; e se fosse deixado para mim decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última hipótese. Mas devo dizer que todo homem deve receber os jornais e ser capaz de lê-los.”

O trabalho com o noticiário é manter todos informados – uma ação que nos permita ser melhores cidadãos, monitorados com o que precisamos saber. Na emocionante, desigual e agitada era da internet, a necessidade de notícias – precisas e justas, perspicazes e independentes – é maior do que nunca.

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Os “olhos” e grifos do artigo foram feitos pelo blog JL.

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