Para “sonhadores e bêbados”, um texto sobre Joseph Mitchell

Escritores da Alma

Por Maura Voltarelli.

“Uma tarde, durante um recesso do tribunal, eu estava sentado a essa mesa, tomando café com Panagakos, um fiscal de sursis, um fiador e dois detetives da delegacia de costumes, quando um curioso homenzinho entrou no restaurante. Tinha por volta de 1,62 ou 1,64 de altura e era bastante magro; não devia pesar mais que uns quarenta quilos. Estava com a cabeça descoberta e empinada para o lado, como um pardal. Tinha cabelos compridos e uma barba densa. Traços de sujeira na testa indicavam que a havia coçado com dedos imundos. Ele usava um capote vários tamanhos maior, quase roçando o chão. Trazia as mãos juntas, para aquecê-las – fazia muito frio -, e as mangas do capote as cobriam, formando uma espécie de regalo. Apesar da barba, o homem tinha algo de infantil e de perdido, com aquele capote grande demais, a cabeça descoberta e o rosto sujo: um menino que subira ao sótão com outras crianças para experimentar roupas de adulto, se cansara da brincadeira e caíra fora”. (MITCHELL, 2003, p. 43).

 

Entre as grandes obras-primas do Jornalismo Literário, uma delas não pode deixar de ser lembrada, trata-se de O Segredo de Joe Gould (2003), do escritor norte-americano Joseph Mitchell. O livro é composto por dois perfis que têm como personagem um mesmo homem, ou como Mitchell prefere chamar, uma mesma alma perdida: Joe Ferdinand Gould. Os dois textos foram publicados na revista The New Yorker, na qual Mitchell trabalhou por grande parte da sua vida, o primeiro em 1942 e o segundo em 1964. Mitchell, a exemplo de jornalistas americanos que posteriormente se aventuraram nos ideais do New Journalism e se propuseram a fazer um jornalismo livre das amarras e dos limites formais e temporais presentes no cotidiano das redações, produziu textos simplesmente lindos e emocionantes, associando seu nome ao mais alto padrão de texto jornalístico que avançou sobre as margens da literatura.

Joe Gould - Jornalismo Literário

Imagem do filme Joe Gould’s Secret, dirigido por Tucci e Howard A. Rodman. No filme Joe Gould (imagem) é interpretado por Ian Holm

 

 

Ele tinha um dom natural, uma sensibilidade própria em voltar-se para os anônimos do cotidiano, era disso que Mitchell gostava, era sobre isso que sabia escrever como ninguém. Como diz a frase retirada do obituário de Joseph Mitchell no New York Times, ele gostava de sonhadores e bêbados,e, para ele, as pessoas eram sempre tão grandes quanto seus sonhos. Diante dessa característica, Mitchell evitava os lugares comuns do jornalismo como por exemplo as celebridades, os poderosos, as pessoas em evidência. Ele gostava dos que viviam à sombra, estes o atraíam para serem revelados delicadamente pelo estilo discreto de Mitchell. Quando diziam que ele se dedicava a personagens pequenos, ele costumava responder: “Eles são tão grandes quanto você, seja você quem for”. Tamanha sensibilidade e beleza de alma só poderia se refletir em um texto sonoro, regado por ideias belíssimas e originais, histórias e enredos inspiradores, atraentes, por uma linguagem trabalhada, embora não em excesso. Como já foi dito, Mitchell era, acima de tudo, um jornalista de estilo discreto que se esgueirava pelas ruas, camuflado pela escuridão em busca das luzes invisíveis da vida. Aos seus olhos, os personagens de uma grande cidade deixavam de ser mudos e invisíveis aos olhos e ouvidos da multidão diluída e uniforme e passavam a iluminar o mundo com a luz de sua loucura, com o lírio do seu olhar.

O personagem de Joseph Mitchell em “O Segredo de Joe Gould” é um boêmio que vive pelas ruas do bairro nova-iorquino Greenwich Village carregado de lápis, cadernos, guimbas de cigarro e piolhos. Dentre todos os seus personagens, Gould foi aquele que Mitchell mais escutou. Formado em Harvard, Gould é um literato maltrapilho que sabe falar a língua das gaivotas e traduz alguns poemas e textos para essa sua lingua mágica e doce. Daí, a inspiração para o título do primeiro perfil de Joe Gould, intitulado “Professor Gaivota”. Além de traduzir clássicos da poesia em língua inglesa para a lingua das gaivotas, Joe Gould também estava escrevendo uma obra monumental, eram muitos e muitos cadernos preenchidos que formariam a obra de toda uma vida chamada “Uma história oral de nosso tempo”. Essa história seria baseada apenas naquilo que as pessoas da sua época diziam. Gould decidira escutar as pessoas nas ruas, nos bares, banheiros, à noite, durante o dia, atrás das portas, enfim, escutá-las. Em outras palavras, Mitchell encontrou em Joe Gould um homem tremendamente parecido com ele próprio, que gostava de escutar as pessoas e achava que a história de uma nação estava justamente naquilo que as pessoas diziam, não nos parlamentos ou nas guerras. Joe Gould era seu personagem perfeito.

joe-gould-recorte-revista

Na legenda: “Joe Gould, um dos personagens mais conhecidos da rua, trabalhando em sua famosa obra História Oral do Nosso Tempo”

 

O interessante é perceber como Mitchell soube olhar bem para Joe Gould, ele enxergou o homem, o escritor, o falante da língua das gaivotas por trás do boêmio. Ele viu uma profundidade psicológica naquele indivíduo, uma cor diferente na sua alma, um olhar mais longo, reticente e profundo, ele viu uma história que valeria a pena ser contada, e esse é o segredo de um bom perfil. Se a história de vida não for boa, o perfil simplesmente não se sustenta, mesmo com uma belíssima linguagem, tocantes metáforas, imersão total na realidade, múltiplos pontos de vista na narrativa e outros elementos do Jornalismo Literário, nada disso se faz suficiente quando a história não é boa o suficiente para envolver o leitor de modo que este se veja de alguma forma refletido naquelas páginas. Da mesma forma, de nada adianta uma bela história se não se sabe contá-la. Joseph Mitchell é fascinante porque reúne as duas características essenciais do Jornalismo Literário, ele sabe olhar para a cena do mundo e sabe escrever de forma rica e humanizada. Não há outra alternativa, sequer outro segredo, basta saber ver o que os outros não viram, saber contar com as palavras que outros jamais usariam, Jornalismo Literário também é arte, ele empresta a arte da literatura e quando se cai no campo da arte tudo é uma questão de estilo.

Mitchell tem estilo, sabe impressionar com a sua escrita clara, diáfana, direta, correta. Além disso, ele se utiliza da imersão. É evidente o seu mergulho profundo na alma de Joe Gould buscando apreender aquilo que talvez nem mesmo Joe Gould sabe que tem ou sente. Alem da imersão e da linguagem clara, precisa, discreta, Joseph Mitchell deixa marcado em tudo aquilo que escreve o seu estilo, a sua voz autoral ao narrar as sombras da realidade, jogando nelas uma luz quase sublime.

Capa da primeira edição americana do livro "O Segredo de Joe Gould"

Capa da primeira edição americana do livro “O Segredo de Joe Gould”

Basicamente, o estilo de Mitchell que perpassa ambos os perfis de Joe Gould, é preciso. Como o físico e matemático britânico Maxwell escreveu “seu texto lembra o som que fazem os carpinteiros quando estão construindo uma casa”. Não há hesitação, pregos tortos, acima de tudo, nada sobra, tudo é exato, não há sílabas desperdiçadas. Ele não era um escritor de excessos, era leve, o texto pairava acima das páginas e assim Mitchell desenvolveu formas próprias para tratar histórias da vida real com técnicas de ficção.

A observação minuciosa do mundo material fazia parte do seu método, era uma estratégia literária e, ao mesmo tempo, uma forma de atingir coisas intangíveis, internas (emoções, sentimentos…) através de coisas palpáveis e externas (a estante de livros desarrumada, o relógio gasto, as roupas amontoadas…). Faz parte do estilo de Mitchell uma ponta de humor que transparece em algumas situações de “O Segredo de Joe Gould”, ainda que este humor seja melancólico, negro, daqueles que reduzem a quase nada as grandes pretensões da vida. Outro recurso que ele utiliza em “O Segredo de Joe Gould” é a precisão de dados e informações, principalmente, aquelas que se referem ao seu personagem.

De Joe Gould ele tenta pesquisar tudo, reunir os números, as horas, as quantidades que ajudam a definir aquela alma perdida e mostra todos esses dados ao leitor de forma que este último se sente impressionado e, ao mesmo tempo, satisfeito por um efeito de realidade, um gesto irreversível que faz da realidade algo que simplesmente se impõe e completa as pessoas, no mesmo movimento que as incompleta. Mas neste ponto Mitchell entra com sentimentos, com a alma, com a solidão, talvez seja esta última o grande tema do livro: a solidão de um homem inteligente e puro. A sensação ao saber mais sobre ele é a de que todas as pessoas do mundo de repente tornam-se tão imbecis, tão medíocres, perto de seu coração tão puro, suave e sábio. Mitchell oferece ao leitor o real e o sonho, o que se tem, e o que se deseja, o que isola e o que reparte…

Em tudo isso, ele se faz humano, a humanização é constante em “O Segredo de Joe Gould” e não poderia deixar de ser. Um perfil que não é humano não é um perfil, mesmo que o personagem não tenha sequer uma ponta de humanidade, o retrato de uma vida humana deve ser humano, porque sempre há pontas e névoas de humanidade por trás de cada alma suspensa, basta deixar que ela sutilmente brote. O que sempre interessou para ele foi a descrição do que ia dentro das pessoas por isso seus artigos são verdadeiros perfis psicológicos. João Moreira Salles, em belo e completo posfácio de uma das edições de “O Segredo de Joe Gould”, diz que ele prefere o mergulho vertical as prazeres horizontais.

joseph mitchell - jornalismo literário

Após o lançamento do seu célebre livro, Joseph Mitchell  não escreveu mais. Existem muitas especulações sobre a parada abrupta da escrita que passam desde culpa, depressão e até falta de criatividade. Antes de o Segredo de Joe Gould, Mitchell escreveu vários perfis e artigos lendários para a The New Yorker

 

Joseph Mitchell era realmente um escritor especial, entre suas grandes características, lembradas pelo cineasta João Moreira Salles, estavam a lentidão com que escrevia, o seu peculiar senso de humor, sua tristeza inata, sua grande cortesia, o enigma literário que cerca os últimos trinta anos de sua vida. Acima de tudo, ele era um homem que escutava, suas obras sempre são resultados de escutas atentas e constantes em um processo onde o que pode parecer banal, aos olhos dele, transforma-se em algo extraordinário.

Nas entrevistas, ele era apenas um curioso que gostava de sentir o cheiro e provar o sabor do espontâneo. Mitchell dizia: “Acredito que, do ponto de vista da conversa, as pessoas mais interessantes são homens reunidos num bar, jogando conversa fora para combater a solidão”. Na cidade grande, ao contrário do que muitos buscavam, Mitchell tentava encontrar a permanência, as coisas que sobreviviam à crueldade do passar do tempo e assim as preservava. Pode-se dizer, portanto, que a memória é o elemento essencial de sua obra, ele escrevia para que as coisas não morressem, não fossem esquecidas, já que, como dizem os gregos, é no esquecimento que a morte cumpre plenamente a sua promessa.

O Jornalismo Literário não seria o mesmo sem as letras de Joseph Mitchell, sem a sua dedicação em aguçar a consciência do mundo, um grande escritor, com um grande personagem, antes de qualquer outra palavra a mais ou a menos, um escritor da alma…

E em nossa Noite de Poesia da Natureza ele implorou para declamar uns versos de seu poema ‘A gaivota’. Dei-lhe permissão, e ele saltou da cadeira e começou a sacudir os braços, a pular e a gritar: ‘Scriiic! Scriiic! Scriiic! Foi desconcertante. Somos poetas sérios e não aprovamos esse tipo de comportamento”. No verão de 1942, Gould protestou diante da exposição do Raven, pendurada na cerca de uma quadra de tênis da Washingto Square Sul. Numa das mãos segurava seu portfólio e na outra um cartaz em que escrevera: “JOSEPH FERDINAND GOULD, EXÍMIO POETA DE POETVILLE, REFUGIADO DOS RAVENS. POETAS DO MUNDO, INFLAMEM-SE! VOCÊS NÃO TÊM NADA A PERDER, ALÉM DO MIOLO!” Ao pavonear-se de um lado para o outro, de quando em quando dava um salto e perguntava aos transeuntes: “Quer saber o que Joe Gould pensa do mundo e de tudo que existe nele? Scriiic! Scriiic! Scriiic!” (MITCHELL, 2003, p. 32).

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Texto originalmente publicado no blog Impressões, mantido pela autora do texto Maura Voltarelli. Legendas e fotos editados pelo blog JL.

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