Lançamento: os bastidores do Rally Paris-Dakar em livro-reportagem

Mais um livro-reportagem escrito com as técnicas do Jornalismo Literário é lançado por meio de crowdfunding (financiamento coletivo). O autor é o jornalista Julio Cruz Neto que na obra narra os bastidores de um dos maiores e mais tradicionais eventos do automobilismo mundial: o Rally Paris-Dakar. O primeiro capítulo do livro foi cedido aos leitores e você pode conferir abaixo. O livro está a venda nas livrarias Cultura, Vila, Blooks, entre outras. O e-book, com preço promocional pode ser encontrado no Clube de Autores (link: http://bit.ly/1IgNsH6) e na Amazon (link:http://bit.ly/1MKTAvn). Confira um trecho gratuito da obra:

 

O CARANGUEJO DO SAARA
(primeiro capítulo – cortesia)
Julio Cruz Neto
Todos os direitos reservados

Mal a poeirama assentou, eles se aproximam com cuidado, loucos para ver o que vai sair dali de dentro. Dão uma espiada, apontam, que é isso?, para que serve aquilo?, de onde vocês vêm? Os que falam francês, garotos novos, exibem seus conhecimentos do idioma e de nosso futebol quando ficam sabendo que tem brasileiro na área. Estamos no ano seguinte à Copa de 1998, o vexame na França. Mas eles se mostram ótimos anfitriões, não tripudiam. Aliás, seria barbada apostar que torceram pelo Brasil contra seus colonizadores. Mas nem todos estão para conversa mole, tem gente doente e precisando de ajuda.

livro julio cruz neto

Foto: Julio Cruz Neto

Por isso ela desponta em meio ao grupo, enorme, decidida, linda, puro instinto. Nua da cintura para cima, coberta apenas de pulseiras, colares, piercing, tererê no cabelo. Os seios no umbigo de loba dedicada que nem sabe quantos bebês já amamentou na vida, talvez aquela prole toda que a acompanha, e a criança montada de cavalinho dão um aspecto ainda mais esguio, maternal. Passo firme na direção dos forasteiros, ela já chega apontando para o menino de barriga inchada e apresenta o diagnóstico: ruim do estômago e doente da vista. Olha para o helicóptero vermelho, jeitão de UTI. Respeitosa como todos os demais, não encosta um dedo em nada. Apenas encara os tripulantes e seus infinitos pertences. Pochete, mochila, máquina fotográfica, bloco de anotações, garrafa d’água, marmita, relógio, boné, credencial, óculos de sol, colete com bolsos e mais bolsos. Pra quê? É de um remédio que ela precisa.

Os outros querem mais é matar a curiosidade, ver e ser vistos, olhar para a lente e deixar registrado seu visual. Os homens de turbante e longas vestes, os meninos de cabelo curtinho, quase nada, e camisetas velhas, desbotadas, pano de chão em casa de rico. As me- ninas exibem todas as cores da África, bijuterias a perder de vista, pingentes pendurados na franja, cabeça metade raspada, metade trançada, penteados originais, uma coisa! Um desfile de moda para grife nenhuma botar defeito. Sobre a passarela áspera e espinhosa, pés des- calços que são praticamente cascos.

Mali, janeiro de 1999. Minha vez de subir no helicóptero para acompanhar uma etapa só chega no décimo dia do Granada-Dakar. Muitos não abrem mão do conforto do avião de imprensa em viagens diárias que duram de uma a duas horas, sem susto nem emoção. Mas eu esperava ansiosamente por esse momento.

O começo é meio traumático, muito calor e enjoo. Não sei se é melhor comer, beber… Resolvo encostar a cabeça na janela minúscula e respirar fundo, tentando deixar de lado a impressão de que aquela pode ter sido uma ideia idiota. Devo ter vomitado em todas as paradas, mas, logo na primeira, ao ver a multidão surgindo da vegetação rasteira e amarelada, homens, mulheres e principalmente crianças cheios de curiosidade e disposição para interagir, percebo que estou no lugar certo, na hora certa. Mas nem todos se deslumbram da mesma forma.

Muita gente pensa que as pessoas de determinado lugar ou grupo são iguais, agem igual, que muçulmano tem tendência a terrorista, que americano é tudo alienado, e que no deserto todos vão arregalar os olhos e correr atrás de helicóptero, como se fosse disco voador, circo mambembe. Esse tipo de raciocínio, alimentado pela ignorância, impulsiona a in- tolerância. Mas viajar é uma injeção de anticorpos contra estereótipos, contra a tentação de dizer que japonês é assim, alemão é assado… Em outra parada adiante, no Mali mesmo, aparecem pelo caminho pessoas que não estão nem aí. São senhores já de idade mais avançada. Não são curiosos, não pedem nada. Só tentam se comunicar, de igual para igual. Também tento, não é fácil. Haja mímica.

Um deles leva no pulso um reluzente relógio prateado, com a pulseira larga, mal ajustada, quase caindo. Com gestos e boa vontade, explica que viajou cinco dias para consegui-lo (comprar, trocar, vai saber como) e que a pulseira vai ficar assim mesmo. Levaria muito mais que cinco dias para conseguir um relojoeiro naquele lugar pacato, esturricado e desolador, onde mais fácil que descobrir as horas é tropeçar em ossada de boi ou em pessoas que passam o dia cerzindo e esperando a morte chegar nas sombras escassas. Horas pra quê? Também na base dos gestos, o nômade mais nômade da região, tuaregue autêntico, solitário e calado, explica como faz para dormir. Ele não tem pertences. A única coisa que carrega é um cajado para ajudar nas longas caminhadas. Veste um chapelão de palha, uma sandália de estilo originalíssimo – couro de camelo, parece – e uma espécie de túnica que cobre o corpo todo. A barra, ele puxa até o pescoço para se aquecer quando a noite fria cai sobre o deserto. Aí ele se larga no lugar mais “aconchegante” possível, fazendo da areia, das pedras, da escassa vegetação e dos abundantes espinhos seu colchão, seu travesseiro. Vive em silêncio absoluto enquanto o sol não se põe. Pelo menos é o que dá a entender, indicando com o dedo um pedido de silêncio e mostrando em seguida o trajeto do sol até o anoitecer. Será por respeito ao Ramadã, o mês em que foi revelado o Alcorão, segundo a tradição islâmica? Nessa época, os fiéis devem ler o livro sagrado com mais afinco, frequentar mais a mesquita e jejuar do nascer ao pôr do sol, para sentir o que é passar necessidade.

Além da serenidade, os dois tuaregues têm outros traços em comum. Um deles é o contraste entre a pele muito negra e brilhosa do rosto, que chega a refletir os raios solares apesar da estiagem eterna que castiga, e os pés, que, em contato com a poeira desde sempre, não têm mais cor, têm cor de chão, são como raízes ligando os homens à

terra onde aprenderam a sobreviver. Outro é que ambos vestem azul dos pés à cabeça. É a cor característica dos véus dos tuaregues, que protegem dos maus espíritos e das inclemências da natureza, como sol, rajadas de areia e frio. Tuareg é uma palavra árabe, significa “abandonado por Deus”. Mas eles não são árabes, são berberes. Em geral seguem o islamismo, mas de forma pouco rigorosa. O fato de se sentirem abandonados talvez tenha a ver com essa interpretação mais livre do islã e também com uma determinante geográfica. Assim como os curdos no Oriente Médio, os berberes se espalham por vários países do norte/oeste africano, tais como Mali, Argélia, Líbia, Níger e Burkina Faso. As mulheres não usam véus e podem pedir o divórcio.

Foi nessa região desértica que os dogmas islâmicos tiveram um de seus pontos de irradiação: a cidade de Tombuctu, também chamada de Timbuktu, nome que o escritor Paul Auster deu a seu mundo dos mortos no livro homônimo. Patrimônio da Humanidade que, dizem, está sendo encoberto pelas areias do Saara. Profecia de Paul Auster? Tombuctu já foi um importante centro urbano e comercial onde sábios muçulmanos ajudaram a difundir o islã, mas também um lugar de tolerância religiosa onde judeus, cristãos e muçulmanos conviveram durante séculos. A boa fase acabou no século 16, pela força do exército marroquino e a pujança comercial dos europeus, que dominaram o comércio na África. Apesar da decadência, a cidade é povoa- da, como toda a região que atravessamos na etapa daquele dia. Isso porque há vida por perto, trazida de longe e levada para mais longe ainda pelas águas do rio Níger, o terceiro mais longo da África, com cerca de 4 mil quilômetros. Grande e importante, pois abasteceu caravanas que atravessaram o continente no passado e deu origem a cidades importantes, como a própria Tombuctu. Cruza o sul do Mali, país que tem só 1,6% do território coberto de água, praticamente tudo naquele trecho. Mas descer à beira de uma fonte de água não é garantia de encontrar vida. Pode haver também rastro de destruição e barbárie se a população for exterminada antes de você chegar.

Foi o que aconteceu em algum abominável dia do século passado num oásis no deserto da Líbia. Três dias depois de os homens da aldeia saírem para fazer compras num mercado muito distante, o local foi invadido por uma cavalaria de inimigos, dez ao que consta, quantidade suficiente para uma ação rápida e cirúrgica no vilarejo pequeno e vulnerável, onde é impossível se esconder. Sem proferir uma palavra se- quer, decapitaram as mulheres e também umas poucas crianças que reagiram com mais valentia. A maioria foi levada viva, para ser doutrinada e aprender a lutar no exército inimigo, cortar outras cabeças com a mesma precisão. Será sua alfabetização, sua aula de educação física. Dois dias e meio depois, os homens regressam com o alimento e descobrem que não há mais bocas famintas. Os olhos fervem de cólera, um ódio mortal corre nas veias, mas já é noite, e o pouco de razão que sobra manda deixar o contra-ataque para o dia seguinte. Além do mais, primeiro os mortos. Com rapidez e simplicidade, enterram os corpos. Tomados pelo cansaço, pela fome e pela sede, fazem uma fogueira para devorar um pedaço de carne, mas ignoram os tonéis de água que estão ali desde que partiram. Ignoram de propósito, por medo de sabotagem. Envenenamento é uma tática antiga. Preferem beber no lago que fica ali ao lado, cinco minutos a pé. Saciados, vão descansar depois de combinar a saída em busca da vendeta assim que clarear. O dia nasce, e ninguém se mexe. Nas cabanas, permanecem pelas três semanas seguintes, apodrecendo, até que apareça alguém que espante os urubus e enterre o que sobrou. O lago, de água escassa e parada, tinha sido envenenado.

Tazurbu, Líbia, janeiro de 2000. Enquanto o mundo respira aliviado porque o bug do milênio não causou nenhum estrago, e todos fazem planos para o novo ano, aqui nesse oásis sem glamour nenhum, onde cheguei graças à carona no helicóptero da direção de prova, não há ninguém para planejar nada. Tirando os competidores que, de quando em vez, passam no posto de controle, o 19o dia do ano transcorre em absoluta tranquilidade, como outro qualquer, num cenário desolador de ruínas de barro sem teto que parou em algum ponto de um passado distante. Nem sequer há fotos do ditador Muammar Kadafi, tão comuns em outros lugares. Não há governo. Mas há alguns sinais irrefutáveis de que tudo é real, e não viajamos no tempo para algum ponto da pré-história: uma carcaça de rádio enferrujada e os frascos de remédios usados para envenenar a água do lago. Eles compõem a cena do crime junto com as tamareiras completamente queimadas, a principal fonte de alimento cruelmente transformada em carvão. Mas quem se importa? Não há promotor público nem banco dos réus, só meia dúzia de testemunhas mais preocupadas com o bom andamento do rali. O silêncio é sepulcral, não há mais folhas para a brisa balançar.

Quatorze anos e cinco dias antes, em 15 de janeiro de 1986, tam- bém havia uma jornalista a bordo do helicóptero do diretor de prova, que na época era Thierry Sabine, o criador do Dakar. Mas ela não teve a chance de contar suas histórias. Enquanto sobrevoavam o Mali tentando reagrupar alguns competidores perdidos, uma tempestade de areia os arremessou contra uma duna, e morreram todos. As cinzas de Sabine foram espalhadas em torno de uma árvore do mítico deserto do Ténéré, no Níger, onde passaríamos naquele Dakar-Cairo do ano 2000 se os terroristas tivessem deixado.

(Fim do primeiro capítulo)

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