Jornalista Literária recebe o Nobel de Literatura 2015

Um acontecimento inédito ocorreu na manhã do dia 8 deste mês: pela primeira vez uma autora que se dedica a grandes reportagens foi anunciada como a vencedora do mais conceituado prêmio de Literatura do mundo: o Nobel. O nome da “laureada” é Svetlana Alexievich, uma escritora e jornalista bielorrussa , de 67 anos, que tem sua obra marcada pelos relatos sobre a vida de cidadãos que viviam no regime antiga União Soviética, sobre o desastre nuclear  de Chernobyl e sobre a Guerra do Afeganistão. A cerimonia de entrega será realizada, como já é tradição, no dia 10 de dezembro – aniversário da morte de Alfred Nobel (fundador do Prêmio), em Estolcomo, capital da Suécia.

A apuração exaustiva e composição cuidadosa das reportagens são características marcantes do estilo de Svetlana. Segundo ela: “Eu não estou tentando produzir um documento, mas esculpir a imagem de uma época. É por isso que eu levo entre sete e dez anos para escrever cada livro”, afirmou em uma matéria especial para a TV Francesa.

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Svetlana Alexievich. Foto: NY Times

Abaixo, uma nota sobre a nomeação produzida pelo canal Euronews, de Portugal:

Svetlana Alexievich: “Eu não sou jornalista. Não permaneço no nível da informação, mas exploro a vida das pessoas, sua compreensão da vida. Também não faço o trabalho de um historiador, porque tudo começa, para mim, no ponto de término da tarefa do historiador: o que se passava pela cabeça das pessoas após a batalha de Stalingrado ou após a explosão de Chernobil? Eu não escrevo a história dos fatos, mas a história das almas”.

Biografia

Svetlana Alexievich nasceu na Ucrânia em 31 de maio de 1948, mas cresceu na Bielorrússia. Se graduou em jornalismo na Universidade de Minsk (entre 1967 e 1972) e seu primeiro contato com a reportagem foi em um jornal local na província de Brest. Após um período voltou para Minsk onde trabalhou em um jornal das fazendas coletivas soviéticas: o “Sel’skaja Gazeta”, periódico que a possibilitou coletar material para a produção da sua primeira grande reportagem “Face não feminina da Guerra” (War’s unwomanly face) publicada em 1985 e baseada em entrevistas com centenas de mulheres que participaram da Segunda Guerra Mundial.

“Tudo o que sabíamos da guerra foi contado pelos homens. Por que as mulheres que suportaram este mundo absolutamente masculino não defenderam sua história, suas palavras e seus sentimentos?”, Svetlana sobre o livro War’s unwomanly face.

Após essa obra vieram outros trabalhos como “Vozes da Utopia” (Voices of Utopia) livro-reportagem que mostra a União Soviética sob a ótica individual dos cidadãos, proporcionando uma visão interna original do regime. Esse trabalho e suas críticas ao regime obrigaram a autora a viver exilada em países como Itália, França, Alemanha, Suécia, entre outros lugares.

Apartir daí várias obras se seguiram e premiações internacionais como o polônes Ryszard-Kapuściński em 1996, o Prémio Herder em 1999, o Prémio da Paz dos Editores Alemães, em 2013 e o Prêmio Nobel em 2015, uma vitória para o Jornalismo Literário no mundo.

A seguir, dois brindes do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl: traduções livres de dois excertos de obras de Svetlana. Segundo o o doutor em Comunicação e professor da Pós em JL, Edvaldo Pereira Lima: “Revelam um pouco do propósito narrativo dessa extraordinária, valorosa e destemida escritora da vida real, sinalizam seu modo de trabalho, onde se insere a absorção de recursos da História Oral”. Confira as traduções – inéditas no Brasil – do professor:

Excerto de”Voices of Chernobyl” (Vozes de Chernobyl)

Svetlana Alexievich

Tradução de Edvaldo Pereira Lima

Foi assim no começo. Não apenas perdemos uma cidade, perdemos nossas vidas. Saímos no terceiro dia. O reator estava em chamas. Lembro-me de um amigo meu dizer, “cheira a reator”. Era um cheiro indescritível. Mas os jornais já estavam escrevendo sobre isso. Fizeram de Chernobyl uma casa de horrores, mas na verdade fizeram dela uma caricatura, apenas. Vou contar o que é meu, de verdade. Minha verdade.
Foi assim: Eles anunciaram no rádio que a gente não podia levar os gatos. Assim, nós colocamos nossa gata na mala. Mas ela não queria ir, saiu de lá. Arranhou todo o mundo. Ninguém pode levar seus pertences! Certo, não vou levar todas minhas coisas, levarei apenas uma coisa. Só uma! Preciso arrancar minha porta do apartamento e levar. Não posso deixar a porta. Vou cobrir o buraco com papelão. Nossa porta – é nosso talismã, uma relíquia de família. Meu pai foi velado na porta. Não sei de quem é essa tradição, não parece ser assim em nenhum outro lugar, mas minha mãe me disse que o defunto deve ser colocado na porta de sua casa. Ele fica lá até trazerem o caixão. Sentei-me ao lado do meu pai a noite toda, ele foi colocado na porta. A casa ficou aberta. A noite toda. E essa porta tem umas marquinhas nela. Sou eu crescendo. Está marcado lá. Primeiro grau, segundo grau. Sétimo. Antes do exército. E depois disso: como meu filho cresceu. E minha filha. Minha vida inteira está escrita nessa porta. Como é que eu possa deixa-la?

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Excerto de “Last Witnesses” (Últimas Testemunhas)

Svetlana Alexievich

Tradução de Edvaldo Pereira Lima

*
Na manhã de 22 de junho de 1941, numa das ruas de Brest, jazia uma menina, de pequeno rabo de cavalo solto e sua boneca.
Muita gente guardou essa imagem. Lembraram-se dela para sempre.
O que é mais querido a nós, do que nossas crianças?
O que é mais querido para qualquer nação?
Para qualquer mãe?
Para qualquer pai?
Mas quem conta quantas crianças são mortas pela guerra, que as mata duas vezes? Mata as que nascem. E mata as que poderiam, as que deveriam ter vindo a esse mundo. Em “Réquiem”, do poeta bielorrusso Anatoli Vertinsky, ouve-se um coro de crianças num campo onde jazem corpos de soldados mortos. As crianças não nascidas gritam e choram nas covas rasas.
A criança que passa pelos horrores da guerra ainda é criança? Quem lhe dá de volta sua infância? Certa vez Dostoievski abordou a felicidade geral em relação ao sofrimento de uma única criança.
Houve milhares assim nos anos1941 a 1945…
Do que se lembram? O que conseguem contar? Porque devem contar! Porque mesmo hoje em dia há bombas explodindo, balas assobiando, mísseis reduzem casas a escombros e poeira e as camas das crianças ardem. Porque mesmo hoje alguns querem guerra total, uma Hiroshima universal, em cujo fogo atômico crianças se evaporariam como gotas d´água, murchariam como flores terríveis.
Podemos perguntar o que há de heroico em crianças de cinco, dez anos de idade passarem por guerra? O que essas crianças podem entender, ver, lembrar?
Muito!
O que lembram de suas mães? De seus pais? Só suas mortes: “Um botão da blusa de mamãe ficou nos pedaços de carvão. E no fogão havia dois pedaços de pão quente” (Anya Tochitskaya – cinco anos). “E quando papai estava sendo despedaçado pelos alsacianos ele gritou: Leve meu filho daqui…Leve meu filho daqui para ele não ver isso” (Sasha Khvalei – sete anos).
Elas podem dizer também como morreram de fome e medo. Como fugiram para o front, como foram adotadas. Como, até hoje, é difícil perguntar-lhes sobre mamãe.
Hoje, são as últimas testemunhas desses dias trágicos. Depois delas, não há mais ninguém.
Mas são quarenta anos mais velhas que suas memórias. E quando lhes peço para se lembrar não é fácil para elas. Para elas, voltar àquele estado, àquelas sensações concretas da infância, parecia impossível. Mas uma coisa incrível podia acontecer. Você poderia ver de súbito numa mulher de cabelo embranquecendo uma menininha implorando a um soldado, “Não esconda mamãe num buraco, ela vai acordar e aí vamos passear” (Katya Shepelyevich – quatro anos).
Abençoada seja nossa falta de defesa à memória. O que seríamos sem ela? Um homem sem memória só é capaz de fazer o mal, nada mais que o mal.
Em resposta à pergunta “Quem é então o herói desse livro? ”, eu diria: a infância que foi carbonizada, destruída e morta por bombas, balas, fome, medo e pela orfandade. Para registrar: em casas para crianças na Bielorrússia, em 1945, 26 mil e 900 órfãos foram criados. E mais um dado: cerca de 13 milhões de crianças pereceram na II Guerra Mundial.
Quem pode dizer agora quantas delas eram russas, quantas eram bielorrussas, quantas era polonesas ou francesas? Crianças morreram – cidadãs do mundo.
As crianças da minha Bielorrússia foram salvas por todo o país e criadas por todo o país. No grande coro das crianças eu ouço suas vozes.
Tamara Tomashevich lembra-se até hoje como na casa de crianças em Khvalynsk, no Volga, nenhum dos adultos levantou a voz para as crianças até que o cabelo houvesse crescido após a jornada. E Zhenya Korpachev, evacuado de Minsk para Tashkent, não se esquece da velha usbeque que levou à estação um cobertor para ele e a mãe. O primeiro soldado soviético na Minsk liberada pegou Galya Zabavchik de quatro anos nos braços e a menina o chamou de “papai”. Nella Vershok relembra como os soldados passavam pela aldeia e as crianças olhavam para eles e gritavam, “Nossos papais estão vindo. Nossos papais. ”

As crianças são as melhores pessoas da Terra. Como podemos protege-las nesse atribulado século XX? Como podemos preservar suas almas e suas vidas? E nosso passado e nosso futuro com elas?
Como podemos preservar nosso planeta no qual menininhas deveriam estar dormindo em suas camas e não jogadas mortas na estrada com seus rabos de cavalo soltos? Para que nunca mais a infância seja chamada infância de guerra.
Em nome de tal fé de mulher, como a minha, este livro é escrito!

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